segunda-feira, 25 de agosto de 2008

toque constante

Chegada. Encontro. Olhares. Surpresa. Dia claro, sol a pino. Cidade quente, forno de concreto. O tempo passa, atropelando os momentos e as etapas. Quebrando meus protocolos. Não há tempo para pensar. Os dias corridos não me interessam. A voz doce e suave que escuto não é aquela que pretendia ouvir. É outra, ainda melhor. Canto mudo, palavras abafadas. Não há o que dizer. As palavras chegam à língua, e ela se recusa a falar. Terras, oceano e tempo brigam com o destino. Destino, por si só, contraditório. Controvérsia em mim mesma. Fecho os olhos, procuro abrigo na escuridão. Esqueci de proteger os ouvidos. A música ainda toca. E me toca, profundamente.

abrigo escuro

Eu vou embora, logo vou. Dentre tudo o que eu sinto, o que mais me dói é não poder sentir. Queria viver o que o destino me priva. Queria gritar o que a minha garganta não berra. Queria ouvir o som que meus ouvidos não decifram. E meus olhos, ah os meus olhos. Só queriam avistar a imagem que insiste em turvar a minha retina. Fecho os olhos, então. Para ver e sentir. Para driblar o destino. Ludibriar meus ecos. Enganar meus ouvidos. Corro, vejo. Ouço, viajo. Grito, ecôo. Eco louco, desenfreado. Bate nas paredes da alma, nos tecidos do corpo. Escuto-o. Finalmente sonho.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

queda livre

Passeio pelo mundo, desligada. Paro numa esquina, sento num parque, escalo árvores, monto nuvens. Me jogo de um prédio. Pane no pára-quedas que me segura. Não sobra nada. No chão, um punhado de sonhos, ilusões, idéias. Logo ali, adiante da queda, o sonho de um mundo melhor. Um pouco à frente, a ilusão de uma vida simples, sem medos. E, esparramado por todos os lados, o medo. Medo de viver, de sonhar, de lutar. Mas, sobretudo, o medo de amar. Maior que todos os outros. Maior e mais forte, até, que a própria vida. Por isso caí. O medo me empurrou.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

todos os dias

Ensaio palavras. Começo a escrever, engulo tudo, apago. Escrevo cartas, verdadeiros tratados. Palavras profundas, sentimentos que transbordam. Mas, que de nada adiantam. Escrevo mas não envio, guardo, sufoco. E o que não digo, fervilha dentro de mim. Ebulição constante que me queima e arde. As palavras chegam à boca, atingem as pontas de meus dedos. E, numa loucura compulsiva, marcam o papel. Mas, como sempre, amasso a folha, atiro-a ao lixo. E espero. Espero ser lida sem mostrar o que escrevo. E espero, ainda, que meus tratados mentais cheguem a você. Senão pela escrita, pela intensidade com que sinto, penso e me torturo. Todos os dias.

domingo, 3 de agosto de 2008

ballet mórbido

Bailarina-trapezista, preparo-me para o espetáculo. Fecho os olhos, estico meu braço, alcanço a barra firme do trapézio e solto-me. Libero o corpo e me sinto leve, quase posso voar. A sensação de vôo livre que me invade é tão grande que chego a acreditar nela. Solto meus braços, desprendo-me da barra segura que me protege e que, solidariamente, estende a mão para me segurar. Libero-me das amarras, e caio. Cada vez mais rápido. Imprudente e sonhadora, não verifiquei se havia rede para me segurar ou um colo macio para cair. Tal qual meus sonhos e amores, fui de encontro à superfície dura e ríspida do picadeiro. Ainda assim, virei um espetáculo. Espetáculo morto.

fortaleza

Eu queria parar. Preciso parar. Parar de ser forte, viver em fortaleza. Fortaleza falsa, que não me protege e que, apenas, mostra-se firme na hora de levar as pancadas, muitas, que a vida me dá. Nada me derruba e, se me curvo, logo volto à posição inicial. Não quebro, apenas me machuco. Perco pedaços e eles, à primeira mostra de esperança, se refazem. No corpo, muros de uma fortaleza, restam as marcas. Muitas, afinal. Mas, sou fortaleza cega, não vejo as marca e apenas sinto-as. Fortaleza cega e burra, ainda. Pois, não vejo e não aprendo. Queria despir-me dos muros, liberar as do portão que me fecha e liberar a prisioneira mulher que vive dentro de mim. Ela precisa sofrer, desfalecer. Ao menos uma vez.

repetição

Dias repetidos. A vida é cíclica, maré cheia que, quase sempre, esvazia. Esvazia até secar por completo. Até a última gota de água evaporar. Resta, então, um grande punhado de sal. Mar branco e seco, que também me seca e me salga. Seca constante que torna a alma sedenta de tudo. E o sal sobrevive, não morre e não se vai. Permanece sempre ali, salgando e tornando ainda mais viva a ferida necessitada do alívio que a água traz. Conservada pelo sal das lágrimas que um dia escorreram, eu espero. Espero a chuva brotar no canto dos meus olhos tempestuosos. Tempestade vermelha, de sangue e água. Para, mais uma vez, curar a febre, aliviar a dor, lavar a alma.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

escolhas

Céu de estrelas híbridas. Inferno de dúvidas. Céu e inferno, afinal. Inferno de pedra absolutamente confortável. Inferno para alguns, céu para outros. Ou, ainda, o paraíso. Confusão de sensações e vontades. O inferno pode ser bom e nunca mais quero ir embora. No fundo, tudo quer me prender. Um “tudo” forte, que tudo invade. Foi logo, foi rápido, nem deu para respirar, pensar entendimento ou ponderar situações. Apenas sentir. Apenas sinto. Vem comigo. Inferno, céu (ou paraíso?). Conceitos relativos?

sábado, 26 de julho de 2008

herança genética

Miro, profundamente, o espelho. E te vejo, ou me vejo então, ali. Somos duas e uma só. Duas porque sofremos e amamos diferente. Mas, uma, porque sou parte de você. Como você é tão parte de mim. Olho seus olhos através dos meus próprios e vejo a idade diferente nas marcas da pele. No entanto, as lágrimas que escorrem dos meus e dos seus, têm a mesma razão de ser. Derramamos o mesmo líquido salgado e sofremos tal qual a outra. Não temos o mesmo corpo e nem as mesmas convicções. Mas, o amor que nos cega, nos torna iguais na carne e na alma. Você é meu modelo. E até nisso copiei seu rastro. Fiz igual, sofro igual. E já não percebo mais as diferenças tão visíveis de outrora. O amor que nos cega também nos mistura. Mistura híbrida e única. A mesma carne, o mesmo gene, mãe e filha, afinal.

oração

Pontadas, agulhadas, perfurações. Todos os dias meu corpo padece e implora pelo fim da tortura sem nome, sem dignidade e sem face. Cada dia as lágrimas nascem no canto dos olhos com uma força infundada. Força e água que não sei de onde vêm. Pois há muito sou deserto parado, esperando ansiosamente pela morte, meu verdadeiro oásis. Sonho, viajo. Imagens que vêm à mente entre os intervalos alucinógenos da dor que me arde. Sinto tudo. Cada parte de mim grita e se desespera. Todas as noites, eu rezo. Canto louco que me escapa à boca. Não me acorde amanhã. Me deixe dormir, eu imploro. Amém.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

marca ácida

Face vermelha, queimada. Rubro rastro deixado pelo pequeno córrego de lágrimas. Pequeno, mas constante. Ácido cortante que escorre de meus olhos. Tão ácido que me cega, só consigo senti-lo. O turbilhão de águas volumosas que outrora derramava, aos poucos foi diminuindo. A água de meu corpo, devagar, foi tornando-se escassa. Escassez quase desértica. Deserto de sentimentos, clima árido que impede qualquer semente de gerar frutos ou árvore frondosa. A única vida que ainda resiste são meus olhos cegos. E o único liquido que de mim escorre é a salgada lágrima que me destrói. Preferia a tromba d’água que me arrebentava os olhos furiosamente. O choro fraco e constante é o que mais dói a alma agora.

terça-feira, 22 de julho de 2008

dom de fazer profecias

Um dia ela estava andando. Andanças rotineiras pelos vales do sul. Sobe, equilibra-se no parapeito estreito, abre os braços e cai. Cai até sentir a pedra áspera do asfalto arranhar-lhe o corpo e a alma. Imóvel, incapaz, perde os sentidos. Sente somente a dor que corta-lhe os músculos e a carne, que parte os ossos em pedaços. Abre os olhos, olhos etéreos, não mais são feitos de carne. Olha-se então, esticada, e sente as dores do corpo que não mais lhe pertence. Grita, berra. Mas, pobre moça, ninguém a escuta. Não há mais garganta ou boca para profanar o desespero que sente. Desfigurada, desconsertada, não sente, apenas, a dor de sua matéria mutilada. Mas, também, o desespero de não conseguir chegar perto do corpo que há pouco era seu, tamanha a aglomeração. Ao longe, vem alguém correndo, cada vez mais perto. É a santa mãe que outrora deu à luz e que, inconformada, devolverá o fruto crescido de seu ventre à escuridão. Não a escuridão primeira, do ventre quente. Mas a escuridão póstuma da terra fria. E, agora, além do desespero e da dor, sente a angústia de não poder dizer à mãe: “Estou aqui, ainda”. Ela não enxerga e não escuta. O esforço é em vão. Passado algum tempo, mais aglomeração. Todos choram a flor mutilada e despetalada, talvez ainda em botão, dentro da caixa de madeira escura. Ao lado, uma moça bonita e jovem. Olhos banhados, rosto inchado e a certeza, mais do que certa, de que o boomerang sempre volta e de que nem a morte estanca o sangue e a dor de quem sofre.

domingo, 29 de junho de 2008

conversa fiada

Sabe Deus, o que mais me dói é ainda sentir. Sentir não a dor de sentir o que sinto mas, sim, a dor profunda que corrói o estômago quando as lembranças vêm à tona. Dor que arrebenta, estoura as vísceras. Sabe Deus, já cansei de pedir. Quanto mais eu peço, mais me lembro. E dói, se o Senhor não sabe. Desculpe-me se tão rudemente me dirijo. Mas é que não comporto o dom das lembranças. Não sou capaz de carregar o fardo árduo, a sina triste. Me dê outra tarefa. Não menos árdua que essa. Mas que me transporte para outro mundo. Qualquer outro lugar que seja meu. E não a representação barata de um mundo que dizem ser o seu.

terça-feira, 10 de junho de 2008

10 de junho

Hoje é aniversário do nada. Comemoração vazia, festa muda, alegria calada. Hoje brindo em comemoração às cinzas. Festejo o dia que não aconteceu. Enfeito a casa e me enfeito. Sento junto à porta e espero. Espero os convidados que não convidei. E, quando cansar de esperar aqueles que não virão, vou abrir um vinho e comemorar, sozinha, junto ao som ou à televisão. Acenderei a vela do bolo, cantarei parabéns sozinha. E, sozinha, irei apagá-la. Ao apagar, entoarei mudamente meu único pedido. Corto o bolo, distribuo os pedaços em pratos. Um pedaço para cada convidado que não veio. Comerei o pedaço que me cabe. Tomarei meu copo de vinho. E, novamente, irei juntar-me ao som. Trocando compulsivamente os discos que tocavam um ano atrás. Quem sabe a música refaça o dia.

terça-feira, 27 de maio de 2008

camaleônica?

Disfarces, são tantos os que existem por aí. Só eu, burra completa, não aprendi a usá-los. Não sei camuflar-me. Afinal, nasci mulher e não camaleão de sangue frio. Rastejo, nua e à mostra, sem roupa ou fantasia que me proteja da selva urbana em que vivemos. Encosto-me na árvore de mentiras e fico ali, descoberta, verdade vazia. Não sei colocar a máscara da frieza, da indiferença ou, então, ficar inerte aos princípios e valores – esquecidos – desse mundo. Preciso viver. Mesmo que rastejando, suja e nua pelas calçadas e pelas ruas. Preciso viver. Viver tudo o que me cabe. E, por não viver, é que muitas vezes me desfaço em pedaços. Pedaços de ódio mal-vividos. Fragmentos esquecidos de amor.