Bailarina-trapezista, preparo-me para o espetáculo. Fecho os olhos, estico meu braço, alcanço a barra firme do trapézio e solto-me. Libero o corpo e me sinto leve, quase posso voar. A sensação de vôo livre que me invade é tão grande que chego a acreditar nela. Solto meus braços, desprendo-me da barra segura que me protege e que, solidariamente, estende a mão para me segurar. Libero-me das amarras, e caio. Cada vez mais rápido. Imprudente e sonhadora, não verifiquei se havia rede para me segurar ou um colo macio para cair. Tal qual meus sonhos e amores, fui de encontro à superfície dura e ríspida do picadeiro. Ainda assim, virei um espetáculo. Espetáculo morto.
domingo, 3 de agosto de 2008
fortaleza
repetição
quinta-feira, 31 de julho de 2008
escolhas
Céu de estrelas híbridas. Inferno de dúvidas. Céu e inferno, afinal. Inferno de pedra absolutamente confortável. Inferno para alguns, céu para outros. Ou, ainda, o paraíso. Confusão de sensações e vontades. O inferno pode ser bom e nunca mais quero ir embora. No fundo, tudo quer me prender. Um “tudo” forte, que tudo invade. Foi logo, foi rápido, nem deu para respirar, pensar entendimento ou ponderar situações. Apenas sentir. Apenas sinto. Vem comigo. Inferno, céu (ou paraíso?). Conceitos relativos?
sábado, 26 de julho de 2008
herança genética
Miro, profundamente, o espelho. E te vejo, ou me vejo então, ali. Somos duas e uma só. Duas porque sofremos e amamos diferente. Mas, uma, porque sou parte de você. Como você é tão parte de mim. Olho seus olhos através dos meus próprios e vejo a idade diferente nas marcas da pele. No entanto, as lágrimas que escorrem dos meus e dos seus, têm a mesma razão de ser. Derramamos o mesmo líquido salgado e sofremos tal qual a outra. Não temos o mesmo corpo e nem as mesmas convicções. Mas, o amor que nos cega, nos torna iguais na carne e na alma. Você é meu modelo. E até nisso copiei seu rastro. Fiz igual, sofro igual. E já não percebo mais as diferenças tão visíveis de outrora. O amor que nos cega também nos mistura. Mistura híbrida e única. A mesma carne, o mesmo gene, mãe e filha, afinal.
oração
Pontadas, agulhadas, perfurações. Todos os dias meu corpo padece e implora pelo fim da tortura sem nome, sem dignidade e sem face. Cada dia as lágrimas nascem no canto dos olhos com uma força infundada. Força e água que não sei de onde vêm. Pois há muito sou deserto parado, esperando ansiosamente pela morte, meu verdadeiro oásis. Sonho, viajo. Imagens que vêm à mente entre os intervalos alucinógenos da dor que me arde. Sinto tudo. Cada parte de mim grita e se desespera. Todas as noites, eu rezo. Canto louco que me escapa à boca. Não me acorde amanhã. Me deixe dormir, eu imploro. Amém.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
marca ácida
terça-feira, 22 de julho de 2008
dom de fazer profecias
Um dia ela estava andando. Andanças rotineiras pelos vales do sul. Sobe, equilibra-se no parapeito estreito, abre os braços e cai. Cai até sentir a pedra áspera do asfalto arranhar-lhe o corpo e a alma. Imóvel, incapaz, perde os sentidos. Sente somente a dor que corta-lhe os músculos e a carne, que parte os ossos
domingo, 29 de junho de 2008
conversa fiada
terça-feira, 10 de junho de 2008
10 de junho
Hoje é aniversário do nada. Comemoração vazia, festa muda, alegria calada. Hoje brindo em comemoração às cinzas. Festejo o dia que não aconteceu. Enfeito a casa e me enfeito. Sento junto à porta e espero. Espero os convidados que não convidei. E, quando cansar de esperar aqueles que não virão, vou abrir um vinho e comemorar, sozinha, junto ao som ou à televisão. Acenderei a vela do bolo, cantarei parabéns sozinha. E, sozinha, irei apagá-la. Ao apagar, entoarei mudamente meu único pedido. Corto o bolo, distribuo os pedaços
terça-feira, 27 de maio de 2008
camaleônica?
Disfarces, são tantos os que existem por aí. Só eu, burra completa, não aprendi a usá-los. Não sei camuflar-me. Afinal, nasci mulher e não camaleão de sangue frio. Rastejo, nua e à mostra, sem roupa ou fantasia que me proteja da selva urbana em que vivemos. Encosto-me na árvore de mentiras e fico ali, descoberta, verdade vazia. Não sei colocar a máscara da frieza, da indiferença ou, então, ficar inerte aos princípios e valores – esquecidos – desse mundo. Preciso viver. Mesmo que rastejando, suja e nua pelas calçadas e pelas ruas. Preciso viver. Viver tudo o que me cabe. E, por não viver, é que muitas vezes me desfaço
pretensiosa realidade
A vontade é de ficar o resto da vida ali, mergulhada na infância perdida. Nos pedaços de papel amarelado, o retrato de uma criança esquecida. Tantos são os fragmentos. Coletânea mórbida de papeis brilhantes. Todos reunidos no interior da capa dura, igualmente amarelada. Cada pose, cada gesto, esconde os dias e as noites que vieram antes de a luz de um flash captar aquele ínfimo momento. Noites mal dormidas, dias que passaram mais rápido que o vento, mais rápido que o piscar de nossos olhos. Cada imagem, cada sorriso, todos tendenciosos, mostrando uma verdade inventada. Nunca vemos os dias ruins num álbum de fotos. Mas, são eles que nos levam de uma foto feliz à outra. A nós, resta viver os intervalos.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
idas e vindas
Umas resolvem ficar, outras vão e jamais voltam. Outras são eternas lembranças de uma mente que, sequer, tem certeza se viveu, de fato, tudo o que lembra ou se, apenas, imaginou tantos detalhes usando sua imaginação fértil de criança. Algumas, ainda, vão embora sem deixar rastros ou pistas que indiquem o caminho que escolheram. E, de repente, sem falar nada, sem fazer barulho no portão, entram pela porta da sala da nossa casa. Entram, sentam no sofá e perguntam o que tem pro almoço. Assim, simples, como se sempre tivessem estado por ali, esperando a mesa ser posta e o almoço ficar pronto. Outras, não se afastam jamais. No entanto, nós acabamos por nos afastarmos delas. Então, quando menos esperamos, as lembranças ressurgem vívidas, ávidas, fortes, coloridas na lembrança. E relembramos com saudades daqueles que perdemos ao longo dos longos caminhos que percorremos pela vida. Mas, por hoje, chega. Vou guardar as outras lembranças para o próximo banco de praça em que eu possa me sentar e relembrar, reviver. Quem sabe, no próximo banco, você seja, apenas, mais uma dessas pessoas. Dessas que a vida encarregou-se de deixar na lembrança.
domingo, 4 de maio de 2008
memórias de um suicida
Seguro a faca afiada com força. As mãos quentes pelo sangue que corre esquentam, também, o cabo gelado da faca empunhada. Rasgo a pele e o sangue escorre. Limpo o líquido vermelho e pungente que insiste em escorregar pelos retalhos de pele grossa. Está frio, mas o calor do sangue me esquenta. A dor é gritante. Tão gritante que me cala, sofrendo quieta e muda. A memória se confunde com as impressões de agora. Não sei se choro pelo presente ou pela dor de outrora. Nem sei, ao menos, se o líquido quente e salgado que agora pinga dos olhos é sangue ou lágrima. Continuo recortando-me. Pedaço por pedaço, víscera por víscera. O sangue, agora, corre com mais força. No que sobrou do corpo, nos pedaços da alma e, também, nas pedras da calçada.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
crescer dói
A vida passa, devasta os anos, furiosamente. O tempo corre, galopa cada dia mais veloz. Na correria, perdidos no tempo, não achamos espaço para parar um pouco. Para rever conceitos, reavaliar o passado. E, quando finalmente paramos, é quase impossível acreditar que tanto tempo já passou, que tanta vida foi deixada para trás. Aí, vem aquele momento em que pensamos: “eu era feliz e não sabia”. E relembramos a infância. O tempo em que a praia era limpa, em que o verão era quente, em que a vida passava lentamente. Conseguimos, até, nos enxergar pequeninos. Às vezes, naquela época, reclamando da vida. Reclamando da nossa grande responsabilidade de carregar o baldinho até a praia, quando, tudo o que queríamos, era ir com as mãos vazias, soltas sentindo a brisa do mar. Ah, se soubéssemos! Se conseguíssemos prever o futuro e nos ver hoje. Adultos com medo da vida, do tempo, ou da falta dele. Se pudéssemos, realmente, enxergar além do nosso mundo de criança, certamente aproveitaríamos mais. Ou não. Viveríamos angustiados com a certeza de que a parte simples e feliz da vida dura tão pouco.
