terça-feira, 30 de outubro de 2007

exposição

Estou cansada de pessoas bacanas, classe média legal. Não concorde comigo apenas por concordar. Não aplauda minhas idéias, não sou mico de circo para ser “bonitinha”. Tenha opiniões, argumentos, posições. Tome partido, seja parcial. Mostre a que veio, mostre-se por inteiro. Dê a cara à tapa como eu dou a minha para você bater. Tenha coragem! Levante-se, mostre o rosto! Cresça, invente-se! Seja você mesmo. Não me copie, eu não gosto. Não me bajule, eu não gosto. Não puxe o meu saco, eu não quero. Quero ver você por inteiro, por mais medíocre que você seja. Não tenha vergonha de sua insignificância. Lute, para crescer e sair dela. Vamos! A vida tem pressa.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

mais o quê?

Classe média. Comida na mesa. Almoçar fora. Refrigerante e pipoca. Fome? O que é isso? Cinema. Shows. Teatro. Cultura e educação. Colégio bom. Faculdade paga. Oportunidades. Emprego. Carteira assinada. Cartão de crédito. Patrão. Papai e mamãe. Família perfeita. Preconceito? O que é isso? Cachorro, gato, irmãozinho. Vovó e madrinha. Presentes. Natal, aniversário, páscoa. Festas. Inglês. Espanhol. Italiano. Ballet clássico. Plano de saúde. Dinheiro para os remédios. SUS? O que é isso? TV, som e computador. Novas tendências. Cama arrumada. Cobertor e edredon. Banheira quente. Chuveiro a gás. Frio? O que é isso? Brinquedos na infância. Psicólogo. Aulas de etiqueta. Boa educação. Direitos garantidos. Justiça amiga. E você ainda quer o direito de ser infeliz?!

domingo, 28 de outubro de 2007

espelho d'alma

Pele vermelha, grandes manchas escuras em volta, mucosa irritada. Pequenos riscos vermelhos riscam a parte branca. O pequeno círculo central abre e fecha descontroladamente. Disritmia incansável. O globo está brilhante. As lágrimas lhe conferem um brilho único. O anel castanho-claro tem marcas. Não sei se são naturais ou se são as marcas que a vida e o tempo lhe deram. Abro, fecho, torno a abrir. As imagens passam através dele, violentam sua inocência. Fecho para não te ver. Mas sua imagem transcende a realidade. Ultrapassa os sentidos. Te vejo dentro de mim. Olha bem no fundo nos meus olhos. Você verá a minha alma. Me diz, você consegue se enxergar nela?

contramão

Estou correndo pelas ruas da cidade. De vez em quando, olho para trás. Quero ver quanta coisa já deixei passar. Placas, carros, pessoas, são muitos os obstáculos nessa corrida maluca contra os fatos. Corro, corro muito. Corro o mais rápido que as minhas pernas cansadas agüentam me levar. Corro contra tudo, contra o tempo, contra a vida. Estou estafada, cansada, mas não posso parar. Correr tornou-se mecânico, robótico. Passo por muitas coisas no caminho. Nem sei, ao menos, para onde eu vou. Apenas corro. Sempre para frente. Sempre contra tudo. No sentido oposto, vejo que você corre também. Você, corre da verdade. E eu, de encontro a ela.

sábado, 27 de outubro de 2007

meninas de mim

“Vem comigo, querida, pare de chorar!”, disse a menina-mulher para a menina-menina, que estava sentada, chorando no canto de seu quarto vazio. “Ir pra onde?”, perguntou a menina-menina para a menina-mulher. “Ir pra vida!”, respondeu, entusiasmada, a menina-mulher. Então, a pequena e frágil menina-menina levantou-se, enxugou, com as mangas compridas da blusa, as lágrimas que molhavam seu rosto e estendeu a mão para a menina-mulher. Menina, esta, que era a própria vida. A menina-mulher era a menina-menina no futuro. Mais forte e mais corajosa. Elas habitavam um mundo distante, o mundo de mim. Uma ajudou a outra a crescer. Quando a menina-menina caía e não conseguia levantar, surgia a mão da menina-mulher, sempre pronta, sempre forte. E quando a menina-mulher sentia-se fraca demais para sobreviver no meu mundo, a menina-menina aparecia radiante, trazendo consigo a beleza e a graça da infância. Assim aconteceu o mais belo dos encontros: o encontro de mim.

morta-viva

As palavras evidenciam a minha alma. Olha! Vê o sangue que escorre? Veja! Veja além das palavras. Elas mostram o meu eu mais profundo e escondido. Cada letra é um pedaço de mim. Vê as vísceras expostas? Veja! Olhe! Sinta o cheiro podre que sai do meu corpo aberto. É o cheiro dos sentimentos. Eles putrefaram dentro de mim. Veja a dor que pulsa latente na minha corrente sanguínea. Ela corrói as veias, apodrece o sangue. Olhe! Veja! Está vendo o meu coração negro? É a podridão que tomou conta de mim. Olhe! Veja! Sinta a dor de um cérebro amante e retardado. Sinapses descontroladas por algo que não tem valor. Um pus constante sai de dentro de mim. Nada mais pode me salvar. Epilepsia dos sentidos. Amor contido, também mata.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

visita íntima

As portas da cela se abrem. Faz tempo que você não aparece por aqui. Estou faminta, sedenta. Arrumei o pouco que tenho para te esperar. Todos os dias eu arrumo, na esperança de ver as grades se afastarem no início da noite para você passar. Em cima da pequena mesa tem uma caixinha de papelão. Nela, estão guardadas todas as cartas, todas as palavras, todas as promessas de me retirar da prisão que você fez. Você vem me visitar e diz que tem saudades. Ah como são boas e como doem essas palavras! Você, só você, tem o poder de me tirar daqui. Mas você diz que ainda não pode, que ainda é cedo. No fundo, você tem medo. Sabe o perigo que ofereço quando estou fora da prisão. Por isso, de vez em quando, você vem. Ora para alimentar o meu corpo faminto do seu, ora para dar de comer à minha alma carente de esperanças. Hoje, porém, você diz ter vindo para me buscar. Pena que já é tarde e os primeiros raios da manhã alcançam o meu rosto. Hora de acordar. Hora de libertar-me da prisão dos sonhos.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

natureza frágil

Dia de sol, primavera latente. A tulipa amarelo-ouro olhava para o sol, esticava suas folhas, abria-se, lentamente, para a vida. Surgiu, então, de repente, uma bela borboleta roxa. Belas asas, acompanhando o compasso do vento. A borboleta chegou de mansinho, como quem não quer nada. Pousou, levemente, sobre as pétalas macias da tulipa amarela. Se olharam, flertaram. A borboleta sugou, aos poucos, cada gota do doce néctar que a tulipa lhe oferecia. Radiantes, as duas ficaram ali, sob o sol. Porém, uma era tulipa, a outra, borboleta. Uma era livre, e a outra, presa ao amor impossível que a natureza errante lhe deu. Uniram-se, a borboleta e a tulipa, juntaram-se, tentaram. Com todas as forças que tinham, agarraram-se uma à outra. A borboleta, porém, era frágil demais, suscetível demais às belezas traiçoeiras do mundo. Não tinha as raízes fortes e corajosas da tulipa. Passaram mais uma noite juntas. Amaram-se, pela última vez. Junto com o sol, o amanhecer trouxe outra tulipa. Não tinha a beleza amarela da primeira. Mas, não deixava de ser bela. A borboleta acordou, esticou as asas. E a tulipa amarela teve tempo, ainda, de ver a borboleta alçar vôo.

eterno presente

Tenho medo. Medo de viver o futuro de amanhã e esquecer o presente de hoje. Medo de trocar a dor certa, pela alegria incerta. Deixarei tudo para amanhã. Por hoje, apenas cuidarei de limpar as feridas, retirar o sangue morto preso à pele. Amanhã eu vou viver! Mas, será que vale à pena? Amanhã, o futuro será o presente e o hoje de agora, será o hoje de amanhã. E se amanhã, por mais um dia, eu deixe a vida pra depois? E se, na esperança do amanhã, os meus dias de hoje sejam sempre os mesmos? Te espero num futuro que nunca chega. Afinal, é futuro e o futuro nunca acontece. Vivemos o hoje, só sobre ele temos controle. No dia de hoje você não veio. Por mais um dia sento e curo as feridas. Quem sabe, amanhã?

ano que vem

O mundo é vasto. São tantos os caminhos, não é mesmo? Muitas vezes, não sabemos por qual seguir. Como eu, agora. Só sei que ando. Ando pelo mundo, perdida em momentos únicos. Momentos que não voltarão, jamais. O mundo é grande, não é? Temos tanto a conhecer. São tantos os projetos. São tantos os lugares. O caminho é longo, não é mesmo? Andarei sempre para frente. Seguindo o caminho, acumulando memórias. Ano que vem me mudo. Ano que vem me reformo. Ano que vem continuo. Agora vou sentar e esperar a vida passar, o sonho acabar, as lembranças serenarem. Ano que vem me levanto e continuo a caminhada. Mas, só no ano que vem.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

caixinha de música

Queria possuir-te. Ter a certeza de que será minha, para sempre, sempre que eu quiser. Queria abrir a caixinha de música e ver você, bailarina-escrava dos meus desejos. Dança menina, dança! Quero ver o balé clássico da posse. Egoísmo, puro egoísmo. O amor, meu bem, é egoísta. Quero te ver dançar. Dança menina, dança! A música suave embala o amor. Tiro-te para dançar, liberto-te da prisão-caixinha. Dançamos uma longa valsa. “Pas de deux” de sonho. Libertei a bailarina em troca de uma valsa. A valsa acabou. Dança menina, dança! Tarde demais. Ela se foi.

complementares

Roxo e amarelo. O frio e o quente. A sombra e a luz. A morte e a vida. Tulipas. Flores. Em mim, nasceu a amarela. Em ti, nasceu a roxa. Flores, muitas flores. O amor necessita de flores. Fragilidade e força. Geração, superação. Sobrevivência. Fogo e água. Nós duas. Eu e você. Somos cores complementares. Roxo e amarelo. Amarelo e roxo.

porta-jóia

Ela era prateada, como a lua resplandecente no céu da noite. Em volta, uma fita lilás contornava toda a volta. Por dentro, o amarelo vivo fundia-se com o mais belo violeta. Tons luminescentes de roxo envolviam as minhas lembranças. Deixei-as ali. Guardadas e escondidas de mim. Porém, não tive o cuidado de esconder, também, a bela caixinha de lembranças. Deixei-a solta, largada entre os móveis e caixas da mudança. Enquanto fazia, ou pelo menos tentava fazer, a minha reforma íntima. Agora, estou recolocando os meus móveis íntimos no lugar. Abrindo, novamente, as caixas com as roupas, faces e disfarces de mim. No meio de tudo, encontrei a caixinha. Aquela, que não tive o cuidado de esconder. Abri. E, do meio das luzes roxas, surgiu você. A minha mais latente proibida lembrança.

perguntas

Por quê? Por que será? O que aconteceu? Aonde você vai? Você vem para o jantar? O amor acaba? A vida passa? Quando você vem? Você vem mesmo? Cadê os sonhos? Qual é o caminho? Me mostra? Me leva contigo? Me ensina a viver? Quando? Volta comigo? Senta aqui? Deita aqui? Jura? Promete? É eterno? Nada é eterno? Por quê? O amor acaba? Diz que é mentira? Você não volta? Nunca mais? E a saudade? O que eu faço com ela? Sem respostas. A esperança acabou.

religiosidade

Acredito, desacreditando. Sou fraca, sou forte. Odeio e amo, intensamente, igualmente. Vivo, paradoxalmente. Juro, mentira deslavada de minha alma. Acreditei, sonhei, amei. Vivi e sobrevivi. Fiz das mentiras, verdades absolutas. Fiz de suas frases, os dogmas incontestáveis da minha religião inventada. Fiz de você, a deusa soberana de uma doutrina antiga. O amor era a minha doutrina. As lágrimas? Essas eram a água benta da minha alma. Limpavam as impurezas, perdoavam suas mentiras, curavam os seus males. Eu? Ah, eu... Pobre dama, Maria Madalena de uma história contemporânea. Atirem a primeira pedra! Foi você quem atirou. Me surpreendi, nem sem porquê. Já esperava. Mas não me lembrava o quanto doía, descobrir que era mentira a descrente verdade inventada de minha alma.