terça-feira, 16 de outubro de 2007

medo de amar

Uns têm medo de avião. Outros, de mar. Tem gente que jamais sentirá a sensação maravilhosa de mergulhar de cabeça. Nem no rio e nem nos sentimentos. Alguns têm medo de animais. Outros têm medo de gente. Uns sofrem com a altura. Outros têm pânico de ficar à altura do chão. Alguns enlouquecem, pois têm medo de si mesmos. Outros fecham-se em si com medo do mundo. Uns têm medo da morte, sofrem com a possibilidade do fim. Outros têm medo da vida, e amarguram-se com expectativa do início. Tem gente que morre de medo de sonhar. Esses, têm medo da decepção ao abrir os olhos e vivem sem conhecer a felicidade por medo do sofrimento. E, alguns, sofrem com a mais triste das fobias. Um medo que os torna prisioneiros de si mesmos, que os escondem do mundo e que cega os olhos às cores da vida. O medo, inerente, imutável e insuperável, de amar.

sábado, 13 de outubro de 2007

pois é

Vontade de escrever. Que bom! Abro o word, penso na vida. Na minha e na sua vida. Olho para a tela, ela ainda está em branco. Busco o meu dicionário interno de palavras. Penso nas palavras ditas ainda há pouco. Finalmente, as palavras foram boas. Baixamos as armas, aliviamos o semblante. Pois é, pensei demais. A vontade de escrever passou. Fecharei o word. Não tenho mais nada a declarar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

vôzinho

Hoje estava te olhando. Você ainda vive dentro de mim. Lembra de quando andávamos de mãos dadas? Lado a lado, a sua geração e a minha. Estava com dor de estômago ontem. Sinto falta dos chás, dos conselhos e dos cuidados quando eu ficava doente. Amanhã é dia das crianças. Estou esperando você vir me buscar para irmos ao centro da cidade passear, tomar sorvete e comprar meu presente. Estou te olhando agora. No outro lado da baía está dando mais peixes. Vamos até lá? Lembra quando íamos, juntos, pescar no fim da tarde? Nunca mais andei na praia. Não tenho mais companhia. Hoje levantei cedo, no mesmo horário que você. A mesa para o café não estava posta, não vi o mamão cortado e a térmica cheia de café. Fui pra aula sem comer. Sinto sua falta. Ainda não me acostumei, apesar de fazer tempo que você partiu. Você ainda está por aqui, eu sei. E, mais tarde, caminharemos novamente juntos. Não por uma vida, mas por toda a eternidade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

felicidade?

Buscamos tanto a felicidade. Mas o que seria ela? Será que, em algum momento, nos perguntamos o que ela seria? Será que sabemos o que ela representa? Alguns acham que a felicidade se resume ao dinheiro. E que este, até, manda buscá-la. Outros acham que viver com quem amam, é a garantia de uma vida feliz. E, dessa forma, delegam a responsabilidade sobre a sua felicidade a outras pessoas. Pessoas que não conseguem cuidar nem da felicidade delas, quem dirá da dos outros. Alguns acham que a felicidade é ter o que querem e o que precisam à mão. É ter tudo de forma fácil, sem esforço. Mas e quem tem dinheiro e não tem amor? E quem tem amor, mas não tem dinheiro? E quem não tem os dois? E quem tem os dois e não tem saúde? E quem tem um amor, mas não sabe vivê-lo? E quem tem dinheiro e não sabe gastá-lo? Esses são os infelizes. E, como não se pode ter tudo nessa vida, nem muito dinheiro, nem muito amor, vivemos procurando, buscando. E nos frustrando a cada busca perdida. A felicidade é uma utopia.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

cicatrizes

As feridas cicatrizam, sabia? Hoje, mais do que nunca, sei disso. Olho para o meu corpo, para a minha alma, e vejo as várias marcas que existem. Algumas são bem profundas, outras não passam de arranhões. Tenho, ainda, algumas cicatrizes que estão abertas. Mas logo elas fecharão. Cuido todos os dias para que elas sejam curadas, superadas. Em algumas partes de mim, as cascas estão começando a cair. Delas, só restarão as marcas que jamais conseguirei apagar. São as marcas da vivência, da experiência e da dor diárias. São os sulcos na face provocados pela erosão das lágrimas. Pelo meu corpo todo tenho, também, marcas de queimaduras. São as marcas deixadas pelo seu toque, pelo toque quente da sua pele. Essas são mais difíceis de apagar do corpo e da memória. São bem profundas e bem doloridas. Mas, quem sabe, o toque frio e gélido de outro corpo consiga neutralizar a ardência, ainda latente, que a minha pele sente.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

gaveta de lembranças

Segunda-feira. Nada de novo, nenhuma novidade. Arrumar o quarto, trabalhar, remoer lembranças, organizar os pensamentos em mim. Finalmente, acho que entendi, acho que aprendi. Me pego passeando por mim, pelas coisas que fazem parte de mim. Sou muito pequena diante da enorme gaveta de lembranças. Mergulho nela como criança pequena, ansiosa por sentir a água gelada da piscina. Na enorme gaveta não tem água, mas sinto o gelo dos papéis e das lembranças acumuladas. As lembranças que passam por mim são frias, agora. As vejo com certo distanciamento. Elas não me atingem mais. Após longo mergulho, saio renovada de dentro da gaveta. As lembranças escorrem pelo meu corpo como a água da piscina. Sento, então, na beirada da gaveta-psicina. Só agora, vendo tudo de cima, é que me dou conta. O fundo da gaveta, formado pelas lajotas da piscina, é o seu rosto. Você é o pano de fundo da minha gaveta de lembranças. Te olho, então, nos olhos. Te vejo ali, parada estática, imersa nas minhas lembranças. Vou te guardar pra sempre ali. Minha doce e triste menina-lembrança.

notícia qualquer

Procuro notícias suas, quero saber de ti. Olho a vida alheia, em busca da sua. Sei que não me fará bem, mas olho mesmo assim. Tenho tudo guardado. Tudo aquilo que um dia eu descobri. Tudo aquilo que me machuca, está numa caixinha escondida de mim. Às vezes, quando saio por aí, a encontro. Revivo as lembranças ruins, lembro de cada lágrima derramada, do pranto incontido durante a madrugada. Tudo dói, tudo machuca. Mas, ainda assim, insisto em lembrar. Talvez para não esquecer de tudo, talvez porque preciso das lembranças ruins para me esquecer das coisas boas. As lembranças ruins me machucam, mas me dão força pra continuar. É quando lembro da dor, que lembro de mim e esqueço de ti. Sou eu a algoz de mim.

domingo, 7 de outubro de 2007

zd

Ela é de domínio público. Faz parte da vida de muita gente, de diferentes formas. Cada um, à sua maneira, estabelece um contato íntimo com ela. Simples em sua magnitude. Perfeita até nos possíveis defeitos. Um ícone, uma inspiração. É pretensão demais escrever ou falar sobre ela. Ela desconhece, mas a nossa história é antiga. Talvez, não “nossa”, mas “minha com ela”. Embalando os meus dias, trazendo força, despertando uma vontade desconhecida em mim. Muito mais do que a artista, muito mais do que a figura pública, ela é a figura íntima. Aquela que tem acesso ao mais íntimo de mim. Sua voz, sua musicalidade, sua sensibilidade, falam ao mais profundo dos meus sentimentos, tocam plenamente os meus sentidos. Olhos, ouvidos, corpo e mente abertos às sensações que só ela é capaz de provocar. A mais bela entre as mulheres. A mais excepcional dentre as cantoras. A perfeição em sentido literal. E, acima de tudo, simples em forma e sentidos. Essa é ela. Essa é a que “vive” em mim. Essa é a “minha” Zélia.

filme íntimo

Não, por favor, não repita tudo de novo. Pra que isso? De que adiantam as palavras que escapam soltas, vazias, vagas de sua boca? Elas não me adiantam mais. Maltratam a alma, pisam, escarram no que sobrou de mim. Guarde-as todas pra você. Engula-as. Agora é tarde para repetir tudo de novo. Não quero mais saber dos seus pensamentos, das suas vontades. Elas não me interessam mais. Para que me incluir nos seus sonhos, nas suas vontades agora? Foi você mesma que, há pouco, fez tudo acabar. Você não quis? Você não planejou? Não, chega, não minta mais pra mim. Sabemos sempre o que fazemos. Somos dotados de inteligência para isso, para ter consciência dos nossos atos. Não peça desculpas pelos seus erros. Eles não têm perdão. Talvez, sim, aceitação. Mas cansei se aceitar. De dar a cara à tapa por você, pra você e por nós. Não tem mais salvação, conforme-se. Amargure sua vida, agora. Viva-a intensamente, como talvez você sempre quis. Mas uma intensidade, falha, pobre, barata, vazia. Vai lá, a vida é sua. Viva, sem propósitos, desprovida de sentidos, sentimentos e desafios. Vai lá, você agüenta. Você é bem forte para o comodismo. Sente-se confortavelmente na poltrona da sua sala, assista sua vida passar, como quem vê um filme bobo numa tarde de domingo. Ah, e não esqueça a pipoca, pois pode ser que seja divertido.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

crescer

Vou te ensinar, olha só. Primeiro você precisa sentir melhor os sentimentos. Sim, é estranho. Mas é isso mesmo. Sentir melhor os sentimentos. Isso é o mesmo que sentir melhor as dores, sentir melhor o amor, sentir melhor o gosto das lágrimas e ser sensível às lágrimas e aos sentimentos alheios. Após isso, é preciso ter mais respeito. Respeito compreende educação, carinho, polidez, compreensão. Compreende, também, entendimento. Entendimento das dores, palavras e sensações das pessoas que nos cercam. Quando cumprimos essas etapas, vem a parte do caráter. Essa é difícil, muita gente desiste por aqui. Mas ela é muito necessária e importante. Ter caráter significa ter princípios, ter palavra. Significa promessas cumpridas, palavras verdadeiras, ideologias reais. Para se ter tudo isso, é preciso, também, responsabilidade. Responsabilidade com tudo que as pessoas nos dão. Para isso, é preciso ter sensibilidade para entender os sentimentos das pessoas, é preciso ter respeito ao que elas sentem, é preciso ter caráter para corresponder fielmente e é preciso ter palavra para manter o caráter. Parece muita coisa, até aqui. Mas, na prática, você verá que a linha que separa essas questões é muito tênue e muito fácil de ser perdida ao longo do caminho. Além de tudo isso, e acima de tudo isso, está o amor. É preciso amar, amar muito, para se ter tudo isso. Mas um amor forte, verdadeiro e consolidado através do respeito, do caráter da palavra sincera e da sensibilidade. O amor de um “eu te amo” vazio, não é nada, e pouco, ou nada, acrescenta à vida das pessoas. Pelo contrário, muitas vezes, ele só tem a retirar e subtrair. Viu, não é tão difícil ser adulta, ser “gente grande”. E, por mais que possa parecer, eu garanto: é muito recompensador.

amor de folhetim

Nada mais é novo. Não tenho mais novidades. Minha vida virou um folhetim barato, uma novelinha qualquer. Enredo simples, história tediosa, um drama normal. Os personagens são sempre os mesmos, as pessoas não mudam, os sentimentos são todos iguais. Amor, ódio, tristeza. A velha tríade pobre, mas sempre funcional. Eu sou a mocinha. Pobre dama injustiçada e sofredora. Você, o amor inatingível, sofredor, inalcançável. E, entre nós, milhares de histórias e vidas paralelas. Não podemos ficar juntas. A distância é grande, o preconceito maior ainda. Estamos fora dos padrões. Jovens e belas aberrações apaixonadas. Na novela da vida, nem tudo dá certo no final.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

impulsos

Quando você sentir vontade de falar, não fale! A humanidade não merece mais mentiras. Quando você sentir vontade de chorar, não chore! O choro requer sinceridade, e sinceridade é para poucos. O mundo não merece as suas lágrimas vazias. Quando você sentir vontade de ficar, não fique! Permanecer, criar raízes, não é para todo mundo. Quando você sentir vontade de voltar, não volte! A vida, certamente, estará melhor com a sua ausência. Quando você sentir vontade de amar, não ame! O seu amor machuca, fere, subtrai a alma.

sepultamento

Apagaram tudo. Pintaram as paredes. Não vejo mais nada, agora. As lembranças foram cobertas pela grossa camada de tinta preta. A parede, que antes era cor-de-rosa, não tem mais cor. É negra, escura, vazia. Não reflete mais nada, não exala sensações. Antes, ela mesclava nuances num belo sonho com a cor original das rosas. O quarto reservado aos sonhos tinha perfume, um cheiro gostoso, suave, adocicado. Hoje, para combinar com a negritude as paredes, o ar é fétido, podre, pesado. Fruto da decomposição dos sonhos. Já corroídos, comidos, decompostos pelas bactérias da traição, da falta de amor, de moral e de caráter.

nada

Ideologia barata, falso brilhante roubado. Palavras avulsas e falsas. Caráter falho, pobre. Moralidade comprada, dicionário engolido, enfiado goela abaixo. Discurso decorado, vazio. Vida sem sentido, futuro perdido. Robô frio, sem sentimentos. Estrada tortuosa, sinuosa, perigosa. Viagem perdida, desperdiçada. Mulher fácil, fútil, mercadoria qualquer. Você é nada, com a sua pobre dignidade comprada.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

mãe

Agora eu sou capaz de entender. Agora posso entender o amor e o ódio que te deram vida, e destruição ao mesmo tempo. Entendo, agora, de onde vinha a força de cada dia. De onde surgia a coragem diária, a vontade e a garra constantes. Entendo de onde surgiu a mulher batalhadora, incansável, inconsolável. Entendo, também, de onde surgiu a amargura e o porquê de tantas lágrimas incontidas com o passar dos anos. Entendo, agora, os olhos marejados, vidrados, parados. Quase mortos, às vezes. Entendo o olhar perdido, vagando nas viagens distantes do seu pensamento. Entendo, hoje, a dureza e a rispidez aparentes. Entendo os seus motivos, as suas glórias. Reconheço, ainda mais, os seus méritos. Hoje, sou capaz de identificar e compreender cada marca, cada ferida que seu corpo e a sua alma trazem. Entendo a fortaleza que você construiu em si. Entendo o excesso de proteção e a sua alma fechada para o mundo. Entendo a sua relutância em abrir-se aos sentimentos. Entendo o apego à raiva, ao ódio. Entendo as palavras duras e cruéis que, algumas vezes, você disse. Hoje, finalmente, eu te compreendo, mãe.