Abro a porta que, indiscreta, grita anunciando a chegada. Limpo os pés no tapete surrado de retalhos coloridos. As tábuas do assoalho, marcadas pelo tempo, rangem, reclamando do peso que, há muito, não sentiam. Acendo a luz e espanto-me: ainda há luz. Luz fraca, amarelada, apagada, como tudo, pelo tempo. Os primeiros raios de luz denunciam o abandono dos aposentos. O pó preenche os espaços vazios. Os móveis, todos cinzas, cobertos pela ausência de vida. Ando, vago, revivo e reinvento. Me paro na imagem estática da cama, desde os últimos tempos, desarrumada. No banheiro, branco de outrora, a água amarelada da banheira resplandece, morta e podre, estática. Na cozinha, as xícaras do chá de maçã, os pratos do almoço, a panela do jantar e os talheres que guardam o gosto amargo das nossas salivas, impressões das línguas. Ainda há roupa no varal, estendida, esturricada pela falta de movimento, fibras petrificadas. E, no chão, os lençóis sujos da noite que, um dia, foi a noite anterior. A vitrola da sala grita e berra, pobre muda, som surdo, barulho sem voz, mas, extremamente, familiar. As janelas exibem-se, provocantes. Sinto vontade de toca-las, ímpeto, impulso de escancará-las para o dia. Para que a vida entre e penetre o virgem mausoléu sombrio. Nem que seja, apenas, mais essa vez.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
dia anterior
terça-feira, 22 de abril de 2008
desertificação
Areia seca, fervente. Sol queimando o rosto, queimando a alma. Os raios entram através da carne permeável. Os olhos se fecham, a luz é forte demais. O corpo verte água. Um rio se forma. A ilusão de um rio. Miragens desérticas invadem o ser. A vida vai, aos poucos, desaparecendo sob o sol. Como uma poça d’água evaporando sobre a calçada. Lá na frente, entre as fendas quentes da areia, existe um oásis. Corra! Ainda há tempo para beber a minha alma.
quinta-feira, 27 de março de 2008
círculo secular
Você retorna. Volta, contorna, circula e faz rodeios em torno de mim. Não entendo e sigo assim mesmo, sem entender. Me confundo com seus círculos, me perco na roda que insiste em girar e parar, sempre, no mesmo lugar. Coisas estranhas. Mas, é assim que é o mundo. A Terra é assim mesmo. Dá voltas, gira em seu próprio eixo e sempre acaba caindo no mesmo ponto. Não adianta tentar mudar o curso. Você, filha da Terra, amante do mundo, não é diferente. Imita sua mãe, reproduz seus movimentos circulares. Volta, anda, vaga e se perde pelo mundo, vasto mundo de belezas tentadoras. Mas retorna, e recai novamente
domingo, 23 de março de 2008
minha menina
Noites
efemérides
Datas comemorativas. Belas datas comemorativas. Calendário marcado, fadado através das gerações. Triste sina. Os mesmos dias, as mesmas belas datas comemorativas. Nada muda, apesar da mudança dos anos. Os dias passam, as estações vêm e vão. E o calendário, pobre calendário, continua igual. Datas repetidas, famílias reproduzem os mesmos gestos, as mesmas tradições de outrora. E nada, nada muda. Permanece tudo igual, como numa triste linha de montagem secular. Repetimos os abraços, reproduzimos os sorrisos, fazemos, e refazemos as mesmas antigas receitas. Robôs de raízes profundas. E, assim, vivemos mais um dia, mais uma data, mais uma triste data comemorativa. Efemérides malditas.
quarta-feira, 12 de março de 2008
tulipas
*Texto que, na verdade, foi uma resposta ao questionamento de alguém sobre as rosas e as tulipas...
terça-feira, 11 de março de 2008
escolhas
Sinto fome. Tenho sede. Alimento-me. Pedras caem dentro de mim e enchem o meu estômago. Preenchem buracos, ocupam vazios, refazem ruas. Ruas pedregosas que acabam onde os olhos não enxergam. Mas que, sem dúvida, levam até os vales desabitados do meu interior. Algumas vezes, sou planície vazia, desprovida de vida. Outras sou selva viva, intensa, oculta. Por vezes, árvores frondosas habitam o caminho. São infinitas as paisagens, como são infinitas as minhas faces. Caminho por mim mesma e o caminho caminha por mim. No final da estradinha humana de pedras e carne viva, vê-se a luz de uma clareira. Oásis desértico em meio à selva humana. Rosas enfeitam as escolhas. Tulipas desvirtuam a realidade. Hora de ser mulher qualquer. Ficarei com as rosas.
sexta-feira, 7 de março de 2008
canibalismo
Engulo. Sufoco. Abafo. Corro por todos os lados, agoniada. Afogada, engasgada, sufocada. Ando com pressa, a procura de algo. Mas, só encontro um canto. Um canto que me basta. Preciso, apenas, vomitar a ânsia que me engasga. Que afoga, me sufoca, me deixa agoniada. Me jogo de joelhos, abaixo a cabeça para vomitar. Posição de quem procura a redenção. Quero mesmo a redenção pelo pecado de amar. Vomito. Desafogo, desengasgo. Levanto a cabeça. Olho para o chão. Náusea profunda, certo nojo de mim mesma, asco e ódio vazio por ver o que não gostaria de enxergar. Vísceras expostas, profundeza revelada. Junto tudo com as mãos. Quero voltar ao sufoco, ao afogamento, à agonia. Seguro firme as minhas vísceras, pedaços de carne expostos à dor da luz do dia. Rio vermelho, sangue, ainda quente, encharca as mangas da blusa branca. Manchas que não sairão, jamais. Que permanecerão, sempre. Seguro firme meus pedaços, e os engulo, um por um, sentindo o gosto salgado do meu próprio sangue. Gostaria, mesmo, é de experimentar outras carnes. Comer o que não me pertence. Torturar, triturar e vomitar o que jamais poderá ser meu.
segunda-feira, 3 de março de 2008
oceano
Olhos cor de esmeralda. Pedras brutas, lapidadas pela simples alegria do encontro. Calor lá fora, inferno aqui dentro. Breu em pleno dia, olhos fechados. Visão do tato, gosto do olfato, tato da língua. Cabelos longos, sereia terrestre, azul das roupas, mar de pano pelo chão. Veludo branco, macio e de gosto próprio. Rastro vermelho, marcas das mãos, força bruta e leve do amor. Sonho de tecido, despertar quente, fervente. Água morna, cheiro, perfumes. Mergulho profundo em ti.
sábado, 1 de março de 2008
observação
Vejo a cidade do alto. Prédios, com pequeninas janelas brilhantes, enfeitam um céu urbano. Cada janela abriga vidas desconhecidas, escondidas pela escuridão. Calçadas, ruas, carros, pessoas. Tudo e todos cumprindo o seu papel. Cidade em movimento, vivendo ao embalo da rotação vagarosa do mundo. Dia, noite, amanhecer, anoitecer. Idas e vindas, vida, rotina cíclica. Observo tudo do alto, resguardada pela barreira transparente da fina lâmina de vidro. Sou observadora e observada. Olho a cidade do alto. Sinto o vento, a brisa gelada de uma noite qualquer. Soberana, nada escapa aos meus olhos. Deusa urbana do mundo que enxergo e recrio a cada olhar.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
reza íntima
Te vejo ali, inquietante. No alto da plataforma dividida você se faz e se inventa. Recria e reinventa. Sou mais uma dos muitos que te olham. Desejo contido, guardado. Guardado para mais tarde. Para o momento único de nós duas. Do alto, doce santa misteriosa, você me olha. Reza uma reza só nossa. Uma reza muda e gritante. Que berra através dos olhos, olhares quentes e únicos, desejosos de nós duas. Guardamos silêncio, mudez compartilhada. Sabemos o que vem mais tarde. E o saber nos conforta. Mais tarde, mais além, mais fundo. No íntimo âmago teu e meu, também. Penetrantes e provocantes. Línguas que não falam e que rezam. Reza herege da paixão escondida.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
arrebentação
Nos conhecemos tanto, por tanto tempo. Aprendi você e você, também, me aprendeu. Aprendeu e me prendeu. Nos prendemos. Amarramos nossas vidas com o mais perfeito nó. A emenda da corda era perfeita e era como o fio de vida que nos unia através da distância. Fio de vida ou fio de amor. Você viveu a minha e eu vivi a sua. Intensamente, profundamente. Mergulhamos tanto, afundamos tanto. E pela profundidade do mergulho, fechamos os nossos olhos. Para que o sal ardido da realidade não os machucasse. O fio, porém, tinha defeitos, apesar de toda a perfeição. Esquecemos que ele era mais forte, apenas, na imaginação. Imaginário tentador que nos permeava. Ele arrebentou. E me arrebentou. Fiquei com o maior pedaço do amor que nos unia. E dói, ainda dói, carregá-lo, triste fardo, sozinha.
conclusão
Eu não sou eu. Sou qualquer coisa de uma coisa qualquer. Um pedaço menor de uma parte maior do que eu. Maior e que eu não compreendo. Não posso compreender o que está além dos meus limites. Não posso entender o que ultrapassa o tamanho do meu corpo. Tudo o que eu entendo é mera suposição. Julgo entender e conhecer. No fim, gasto o meu tempo à toa. Horas perdidas num entender que não entendo. Crio conceitos, invento palavras. Decoro teorias, refaço filosofias, chego, até, a uma conclusão científica. No entanto, nada disso é preciso, é tudo puro desperdício. Finalmente, eu nada entendo e, cientificamente, compreendo que nem a mim mesma conheço.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
abismo
Te vejo tão distante. Você aí, vivendo. Engraçado tudo isso. Escolho as palavras, uma a uma. Escolha cuidadosa, meticulosa. Arremesso pedrinhas para o lado oposto do abismo que nos separa. Você lá e eu aqui. Deste lado, nada nasce. É árido, seco, improdutivo. Sinto sede. Olho a vida que brilha do outro lado. Lá está a água que eu sonho
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
24 horas
Vinte e quatro horas de uma vida. Vinte e quatro horas pra viver. Despertar, abrir os olhos, tapa violento da manhã. Luz do dia queimando a retina, início da vida. Ir vivendo, ir levando, apenas mais um dia. Apenas mais essa vida. Aprender a andar, a comer, a falar. Luta diária, guerra curta, vida curta, batalha árdua. Entardecer adolescente sob o sol. Lembrança ainda forte da manhã-infância. Caminhar em direção ao retorno, ao fim, à origem. Anoitecer nostálgico, fim da vida. Banho para dormir. Roupa boa para se deitar. Acabou a luz, acabou o vento, cessou a vida. Caixa escura, lacrada, finada. Reencarnarei amanhã.
