Engulo. Sufoco. Abafo. Corro por todos os lados, agoniada. Afogada, engasgada, sufocada. Ando com pressa, a procura de algo. Mas, só encontro um canto. Um canto que me basta. Preciso, apenas, vomitar a ânsia que me engasga. Que afoga, me sufoca, me deixa agoniada. Me jogo de joelhos, abaixo a cabeça para vomitar. Posição de quem procura a redenção. Quero mesmo a redenção pelo pecado de amar. Vomito. Desafogo, desengasgo. Levanto a cabeça. Olho para o chão. Náusea profunda, certo nojo de mim mesma, asco e ódio vazio por ver o que não gostaria de enxergar. Vísceras expostas, profundeza revelada. Junto tudo com as mãos. Quero voltar ao sufoco, ao afogamento, à agonia. Seguro firme as minhas vísceras, pedaços de carne expostos à dor da luz do dia. Rio vermelho, sangue, ainda quente, encharca as mangas da blusa branca. Manchas que não sairão, jamais. Que permanecerão, sempre. Seguro firme meus pedaços, e os engulo, um por um, sentindo o gosto salgado do meu próprio sangue. Gostaria, mesmo, é de experimentar outras carnes. Comer o que não me pertence. Torturar, triturar e vomitar o que jamais poderá ser meu.
sexta-feira, 7 de março de 2008
segunda-feira, 3 de março de 2008
oceano
Olhos cor de esmeralda. Pedras brutas, lapidadas pela simples alegria do encontro. Calor lá fora, inferno aqui dentro. Breu em pleno dia, olhos fechados. Visão do tato, gosto do olfato, tato da língua. Cabelos longos, sereia terrestre, azul das roupas, mar de pano pelo chão. Veludo branco, macio e de gosto próprio. Rastro vermelho, marcas das mãos, força bruta e leve do amor. Sonho de tecido, despertar quente, fervente. Água morna, cheiro, perfumes. Mergulho profundo em ti.
sábado, 1 de março de 2008
observação
Vejo a cidade do alto. Prédios, com pequeninas janelas brilhantes, enfeitam um céu urbano. Cada janela abriga vidas desconhecidas, escondidas pela escuridão. Calçadas, ruas, carros, pessoas. Tudo e todos cumprindo o seu papel. Cidade em movimento, vivendo ao embalo da rotação vagarosa do mundo. Dia, noite, amanhecer, anoitecer. Idas e vindas, vida, rotina cíclica. Observo tudo do alto, resguardada pela barreira transparente da fina lâmina de vidro. Sou observadora e observada. Olho a cidade do alto. Sinto o vento, a brisa gelada de uma noite qualquer. Soberana, nada escapa aos meus olhos. Deusa urbana do mundo que enxergo e recrio a cada olhar.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
reza íntima
Te vejo ali, inquietante. No alto da plataforma dividida você se faz e se inventa. Recria e reinventa. Sou mais uma dos muitos que te olham. Desejo contido, guardado. Guardado para mais tarde. Para o momento único de nós duas. Do alto, doce santa misteriosa, você me olha. Reza uma reza só nossa. Uma reza muda e gritante. Que berra através dos olhos, olhares quentes e únicos, desejosos de nós duas. Guardamos silêncio, mudez compartilhada. Sabemos o que vem mais tarde. E o saber nos conforta. Mais tarde, mais além, mais fundo. No íntimo âmago teu e meu, também. Penetrantes e provocantes. Línguas que não falam e que rezam. Reza herege da paixão escondida.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
arrebentação
Nos conhecemos tanto, por tanto tempo. Aprendi você e você, também, me aprendeu. Aprendeu e me prendeu. Nos prendemos. Amarramos nossas vidas com o mais perfeito nó. A emenda da corda era perfeita e era como o fio de vida que nos unia através da distância. Fio de vida ou fio de amor. Você viveu a minha e eu vivi a sua. Intensamente, profundamente. Mergulhamos tanto, afundamos tanto. E pela profundidade do mergulho, fechamos os nossos olhos. Para que o sal ardido da realidade não os machucasse. O fio, porém, tinha defeitos, apesar de toda a perfeição. Esquecemos que ele era mais forte, apenas, na imaginação. Imaginário tentador que nos permeava. Ele arrebentou. E me arrebentou. Fiquei com o maior pedaço do amor que nos unia. E dói, ainda dói, carregá-lo, triste fardo, sozinha.
conclusão
Eu não sou eu. Sou qualquer coisa de uma coisa qualquer. Um pedaço menor de uma parte maior do que eu. Maior e que eu não compreendo. Não posso compreender o que está além dos meus limites. Não posso entender o que ultrapassa o tamanho do meu corpo. Tudo o que eu entendo é mera suposição. Julgo entender e conhecer. No fim, gasto o meu tempo à toa. Horas perdidas num entender que não entendo. Crio conceitos, invento palavras. Decoro teorias, refaço filosofias, chego, até, a uma conclusão científica. No entanto, nada disso é preciso, é tudo puro desperdício. Finalmente, eu nada entendo e, cientificamente, compreendo que nem a mim mesma conheço.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
abismo
Te vejo tão distante. Você aí, vivendo. Engraçado tudo isso. Escolho as palavras, uma a uma. Escolha cuidadosa, meticulosa. Arremesso pedrinhas para o lado oposto do abismo que nos separa. Você lá e eu aqui. Deste lado, nada nasce. É árido, seco, improdutivo. Sinto sede. Olho a vida que brilha do outro lado. Lá está a água que eu sonho
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
24 horas
Vinte e quatro horas de uma vida. Vinte e quatro horas pra viver. Despertar, abrir os olhos, tapa violento da manhã. Luz do dia queimando a retina, início da vida. Ir vivendo, ir levando, apenas mais um dia. Apenas mais essa vida. Aprender a andar, a comer, a falar. Luta diária, guerra curta, vida curta, batalha árdua. Entardecer adolescente sob o sol. Lembrança ainda forte da manhã-infância. Caminhar em direção ao retorno, ao fim, à origem. Anoitecer nostálgico, fim da vida. Banho para dormir. Roupa boa para se deitar. Acabou a luz, acabou o vento, cessou a vida. Caixa escura, lacrada, finada. Reencarnarei amanhã.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
desconhecendo-me(te)
É, não foi ledo engano. Foi um engano verdadeiro. De fato, como nunca e mais do que nunca, eu te conheço. Conheço as suas feridas, os seus problemas, conheço onde “aperta o seu sapato”. Conheço suas dúvidas, seus medos e, até, antecipo suas palavras. Antecipo o beijo que você sonha em receber, antecipo os prazeres com os quais você apenas sonhava, antecipo-me. Reinvento-me. Recrio-me. Entendo-te. Amo demais, entendo demais, tolero demais. Vida de excessos. E, de tanto conhecer, desconheço-te.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
hereditariedade
Troco CD's, ao invés de discos. No entanto, os meus CD's repetem os mesmos versos chorosos e doídos de outrora. A dor é a mesma. O pranto é, da mesma forma, contido. São as mesmas perguntas. Meu corpo e sentidos são, aos poucos, tomados pela mesma raiva. O coração, igualmente, não responde. Ando de um lado para o outro. O mesmo andar, os mesmos passos, o mesmo ritmo. Dor pulsante do abandono. O futuro repete o passado.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
(des)conhecimento
Conheço cada parte, cada canto. Recosto a cabeça no travesseiro macio e acolhedor que seu corpo quente me oferece. Somos velhas conhecidas. Conheço teu quarto, tua sala, cada cômodo da sua vida. Sonho com teu leito em carne-viva, vermelha, ardente. Passeio por ti como um cego passeia pela vida. Não vejo. Apenas, sinto o gosto e o cheiro. Porém, onde deveria haver um salão de baile vivo e pulsante, sinto o ar gelado e o chão frio de um piso de mármore. A batida melódica da vida não reverbera pelos quatro cantos de ti. Onde deveria caber um mundo, há só nós duas. Dois rostos desconhecidos bailando ao som de um cortejo fúnebre. E eu achei que te conhecia.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
assuma-se
Vem cá, mostra a sua cara. É fácil ser o que somos, na teoria. Monstros, doentes num mundo sadio. Carregue esse fardo. Você consegue, sua doente? Doença rara, contagiosa e contagiante. Sofremos desse mal. Todos sofrem. A diferença, o que nos separa em pólos diametralmente opostos, é a nossa coragem. Eu mostro a minha cara. Sou doente. Doente de tanta felicidade. Sofro de um orgulho sem tamanho. E de uma coragem maior ainda. Vem cá, mostre a sua cara. Você agüenta a bofetada do mundo?
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
mar morto
Ranjo os dentes. A dor é lascinante. Um gosto salgado molha a língua. Mar vermelho em minha boca. Oceano profundo repleto de células-palavras. Palavras nunca ditas. No fundo do oceano, estão os meus dentes quebrados, como conchas repousando sobre a areia da língua. Partiram-se tal era a força das palavras batendo como navios perdidos contra as rochas marinhas. Nesse oceano vermelho não há vida. O único movimento que existe é o das palavras. As quais vagam como almas perdidas, abafadas pelo silêncio profundo da garganta. Sinta o gosto do sangue.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
a diferença
Quer bater? Bata. Mas bata com força. Para que eu não tenha força para revidar. Quer cuspir? Cuspa. Mas escarre bem fundo, bem dentro dos meus olhos. Para que eu não consiga escarrar
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
despindo-me
Chego
