sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

24 horas

Vinte e quatro horas de uma vida. Vinte e quatro horas pra viver. Despertar, abrir os olhos, tapa violento da manhã. Luz do dia queimando a retina, início da vida. Ir vivendo, ir levando, apenas mais um dia. Apenas mais essa vida. Aprender a andar, a comer, a falar. Luta diária, guerra curta, vida curta, batalha árdua. Entardecer adolescente sob o sol. Lembrança ainda forte da manhã-infância. Caminhar em direção ao retorno, ao fim, à origem. Anoitecer nostálgico, fim da vida. Banho para dormir. Roupa boa para se deitar. Acabou a luz, acabou o vento, cessou a vida. Caixa escura, lacrada, finada. Reencarnarei amanhã.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

desconhecendo-me(te)

É, não foi ledo engano. Foi um engano verdadeiro. De fato, como nunca e mais do que nunca, eu te conheço. Conheço as suas feridas, os seus problemas, conheço onde “aperta o seu sapato”. Conheço suas dúvidas, seus medos e, até, antecipo suas palavras. Antecipo o beijo que você sonha em receber, antecipo os prazeres com os quais você apenas sonhava, antecipo-me. Reinvento-me. Recrio-me. Entendo-te. Amo demais, entendo demais, tolero demais. Vida de excessos. E, de tanto conhecer, desconheço-te.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

hereditariedade

Troco CD's, ao invés de discos. No entanto, os meus CD's repetem os mesmos versos chorosos e doídos de outrora. A dor é a mesma. O pranto é, da mesma forma, contido. São as mesmas perguntas. Meu corpo e sentidos são, aos poucos, tomados pela mesma raiva. O coração, igualmente, não responde. Ando de um lado para o outro. O mesmo andar, os mesmos passos, o mesmo ritmo. Dor pulsante do abandono. O futuro repete o passado.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

(des)conhecimento

Conheço cada parte, cada canto. Recosto a cabeça no travesseiro macio e acolhedor que seu corpo quente me oferece. Somos velhas conhecidas. Conheço teu quarto, tua sala, cada cômodo da sua vida. Sonho com teu leito em carne-viva, vermelha, ardente. Passeio por ti como um cego passeia pela vida. Não vejo. Apenas, sinto o gosto e o cheiro. Porém, onde deveria haver um salão de baile vivo e pulsante, sinto o ar gelado e o chão frio de um piso de mármore. A batida melódica da vida não reverbera pelos quatro cantos de ti. Onde deveria caber um mundo, há só nós duas. Dois rostos desconhecidos bailando ao som de um cortejo fúnebre. E eu achei que te conhecia.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

assuma-se

Vem cá, mostra a sua cara. É fácil ser o que somos, na teoria. Monstros, doentes num mundo sadio. Carregue esse fardo. Você consegue, sua doente? Doença rara, contagiosa e contagiante. Sofremos desse mal. Todos sofrem. A diferença, o que nos separa em pólos diametralmente opostos, é a nossa coragem. Eu mostro a minha cara. Sou doente. Doente de tanta felicidade. Sofro de um orgulho sem tamanho. E de uma coragem maior ainda. Vem cá, mostre a sua cara. Você agüenta a bofetada do mundo?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

mar morto

Ranjo os dentes. A dor é lascinante. Um gosto salgado molha a língua. Mar vermelho em minha boca. Oceano profundo repleto de células-palavras. Palavras nunca ditas. No fundo do oceano, estão os meus dentes quebrados, como conchas repousando sobre a areia da língua. Partiram-se tal era a força das palavras batendo como navios perdidos contra as rochas marinhas. Nesse oceano vermelho não há vida. O único movimento que existe é o das palavras. As quais vagam como almas perdidas, abafadas pelo silêncio profundo da garganta. Sinta o gosto do sangue.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

a diferença

Quer bater? Bata. Mas bata com força. Para que eu não tenha força para revidar. Quer cuspir? Cuspa. Mas escarre bem fundo, bem dentro dos meus olhos. Para que eu não consiga escarrar em ti. Quer o que é meu? Tome. Mas arranque com vontade. Para que as minhas conquistas não retornem pelo simples fato de serem minhas. Quer ser melhor do que eu? Seja. Mas, não esqueça, para isso, será preciso coragem, força, garra e, acima de tudo, ser mulher. Você pode com isso? Eu posso com você.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

despindo-me

Chego em casa. Na memória, um único desejo. Vago pelos cômodos, como quem vaga, massa inerte, por mim mesma. Paro, busco um pedaço de tecido felpudo estendido em algum lugar. Tiro o relógio do pulso, como quem quer livrar-se do peso das horas. Desamarro o tênis, chega de segurança, quero fragilidade. Tiro a roupa, peça por peça, despindo-me do cansaço do meu dia. Entro, deixo a água correr pela pele fria. E o cheiro doce de banho quente entrar pelas narinas. Mais um dia chega ao fim.

vestindo-me

A noite está fria, arrumo o meu ânimo e levanto. Vou me arrumar para sair. Tomo um banho, para despertar a vontade de colocar os pés para fora de casa. Escolho as roupas, como quem escolhe com qual humor sair. Visto o tênis, a básica segurança de sempre. Coloco as pulseiras e, com elas, coloco a disposição no corpo. Um último ímpeto de ficar em casa é espantado ao dar tchau pra mãe e fechar e porta da frente. Eu volto cedo, mas não me espere. Mais uma noite se vai.

sábado, 26 de janeiro de 2008

vazio

Amores vazios me completam. Preenchem o grande vazio de mim. Palavras vazias me completam. Preenchem os vãos vazios dos dentes na boca. Sentimentos vazios me completam. Preenchem os átrios e os ventrículos do músculo mais vazio do corpo. E eu, vazia, desprovida de mim, completo o mundo. Preencho o lugar que me cabe. Peça decorativa, apanhado de células vazias ocupando um lugar vazio do espaço.

opacidade

Não acendem, não piscam. Nada, nada. Não faz. Não acontece. Não acende a luz. É como tentar tocar o nada no escuro. É como querer alcançar o infinito. Talvez, eu tenha a pretensão de fazer parte dele. De integrá-lo. Ou, de querer sê-lo. Não sei, não sei. Nada, nada. Não acendem, não piscam. A luz tem brilho opaco. Matizes estranhas. Arco-íris em preto e branco.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

invasão

Tornado de sonhos, sentidos, sensações. Ele vem de longe e, agora, está tão perto, tão próximo. O vento agarra os meus cabelos, envolve o meu corpo, invade a minha alma. Perigo iminente, visível, real. Tento me segurar, me proteger do vento que quer me retirar daqui. O vento, forte, devastador é, ao mesmo tempo, tão doce, tão seguro, tão familiar. Difícil resistir às forças da natureza. À natureza dos sentidos que me invadem junto com o vento. Deixarei ele entrar, penetrar a carne, bagunçar os sentidos e, por fim, me tirar a razão.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

velhas tentações

São palavras que me tentam. Carregadas de sentidos, sentimentos e vontades. Perturbam a ordem em mim. Meu coração, tão bem treinado, diz que não quer mais obedecer. Sua vontade é sucumbir a uma ordem sem leis. Bate, agora, sem compasso, sem ritmo. Descontroladamente, desesperadamente. Bate no ritmo descompassado das perguntas que vêm, insistentes, à minha mente. Meus olhos não mais querem ver. Fecharam-se às verdades da minha alma, à racionalidade inerente. Sei que é errado, mas, também, sei que é real. Mais uma vez é real. De novo, vou tentar fugir. Fuga inválida pelos caminhos que me levam até o prazer.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

invenções inventadas

Invenções inventadas. Palavras repetidas, momentos vazios. Procuro o procurar. Procuro o verbo, a ação e não o objetivo. Busco fazer e, depois de feito, perde o sentido. Procuro nada mais que eu saiba. Procuro o vazio. Procuro uma caixa grande cheia de nada. Mas, o que importa, é procurar. Luto por tudo o que quero. Depois que eu consigo, perde a graça. É como pedir demais e se cansar de pedir. Procuro o nada. Procuro a vida. E nada, nada mais.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

motivos

Quando o cansaço entrar em seu corpo, anime-se. O ânimo traz mais cansaço. Quando você achar que nada vai mudar, não aguarde mudanças, opere-as. No final, até mudar vira rotina. Quando a tristeza bater à sua porta, alegre-se. A alegria, também, traz a tristeza. Quando você não agüentar mais caminhar, corra. Correr, lhe dará mais vontade de parar. Quando o sol estiver forte demais, não feche os olhos, abra-os. Doerá, mas você vai se acostumar com a luz. Quando tudo lhe parecer perdido, aposte mais alto. Quem sabe, você perderá a vida. Quando a noite lhe envolver em breu, respire fundo e deixe-se levar. A noite trará os seus medos, enfrente-os. Quando o seu amor partir, arrume outro. Este, também, partirá. Quando a vida perder a graça, viva mais. Viver nos aproxima da morte. Alegre-se.