Aos poucos estou apagando os seus registros. Pelo menos os mais aparentes. Alguns - a parte mais primitiva de nós - não tenho como apagar. Correspondem ao cheiro, ao tato, ao gosto. Memórias inabaláveis, impossíveis de serem, simplesmente, deletadas. Suas digitais ficarão para sempre na minha pele, o teu gosto permanecerá para sempre na minha boca. Porém, ainda assim, estou apagando suas impressões. As mais aparentes. Para que elas não mais incomodem os meus olhos. Para que não mais machuquem a minha alma.
sábado, 22 de dezembro de 2007
aos poucos
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
hábito
Puro hábito. Escrevo apenas por escrever. Não me pergunte o que dizem os meus textos, não saberei lhe dizer. Eles falam de dor, de vida, de morte, de sonhos. Mas não sei o que falo ou penso sobre essas coisas. Ensaio palavras, pronuncio pretensões de uma pequeno-burguesa de barriga cheia. Escrevo porque o papel aceita tudo. Pobre coitado mudo. Ele não pode protestar as minhas idéias. Não pode discordar de mim. Falo de fome sem senti-la, falo de dor sem ter perdido um filho, falo de vida sem viver a minha, falo de morte sem lembrar das vezes em que eu morri. No fundo, somos todos hipócritas. Baile de máscaras no salão nobre do mundo. Burguesia suja. Aquele que está dançando lá trás é o representante de uma ONG de proteção à criança e é o pai que bate em seus filhos atrás das quatro paredes de sua mansãozinha. Você é aquele que se revolta vendo o Jornal Nacional, come chocolate, bebe coca-cola no intervalo e nega comida àquele que bate à sua porta. O mundo? Esse é o palco dos cegos que bailam com suas máscaras. É o brinquedinho daqueles que não enxergam além da dor que não sentem, da fome que nunca passaram, do filho que nunca enterraram, da casa que nunca perderam, do frio que nunca sentiram e do amor verdadeiro que desconhecem.
sábado, 17 de novembro de 2007
estranho não poder
Meu amor. Estranho te chamar assim, novamente. Estranho pronunciar as frases já antigas na memória. Estranho cantarolar por aí os refrões das músicas que eram nossas. É tudo tão sem nexo, tudo tão sem sentido. Olho o passado e não te encontro mais. Perdi, ou perdemos, a identificação. Somos estranhas velhas conhecidas. Queria poder mapeá-la de novo. Queria poder reviver cada parte de nós duas. É estranho te querer novamente. Meu amor. Estranho te chamar, de novo, assim. Eu não posso, não posso querer mais.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
lembranças, apenas lembranças
Lembranças, lembranças, lembranças. Memória recente, memória arquivada. Arquivo profundo, densa papelada. Registros de ti. Toques guardados. Sensações protegidas, aquelas pela última vez sentidas. Memória do gosto, do toque, do cheiro, do olhar. Braços e abraços, pele e tato, saliva, língua e boca, sons, olfato. Tudo guardado. Memórias de nós. Lembranças, lembranças, lembranças.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
repetição repetição repetição
Lembranças, lembranças, recordações, memórias, memórias. Passado, passado, passado, presente, tristeza, tristeza, tristeza. Futuro, futuro, saudade, incertezas, incertezas. Retorno, retorno, retorno, permanência, passageiro, passageiro, passageiro. Amor, amor, decepção, eternidade, eternidade. Vida, vida, vida, morte, renascimento, renascimento, renascimento. Fortaleza, fortaleza, dúvidas, paixão, paixão. Distância, distância, distância, caminho, volta, volta, volta. Traição, traição, carinho, perda, perda. Choro, choro, choro, rompimento, vontade, vontade, vontade. Pedidos, pedidos, promessas, mentiras, mentiras. Mais amor, mais amor, mais amor, mais saudade, esquecer, esquecer, esquecer, esquecer, esquecer, esquecer. Pra sempre!
sala-coração
Cinema-mudo de mensagens, palavras escritas, histórias sonhadas. Todos os dias, o meu coração projeta filmes na memória, resgata passagens da minha alma. Os atores são sempre os mesmos. Só o que muda são os cenários que a imaginação inventa ou recorda. Nesta macabra sala de cinema, a única expectadora é a esperança esquálida, apagada, deprimida, definhando sentada na cadeira de veludo cor de vinho. Além da esperança, no fundo da salinha escura, podemos ver a silhueta magrinha da tristeza-escrava, varrendo incessantemente a sala de projeção.
domingo, 4 de novembro de 2007
prova viva
Vem cá! Senta aqui comigo. Tampe os ouvidos. Vem brincar de ser surda comigo, vem? O amor nos chama. Quer, de novo, nos levar pra cama. Seja forte, querida! Não escute a voz bandida do amor. Vem cá! Senta aqui comigo. Feche os olhos. Vem brincar de esquecer da vida comigo, vem? A vida nos prega muitas peças. O destino quer sempre nos fazer andar para trás. Vem cá! Senta aqui comigo. Esconda o seu corpo. Mascare os seus sentidos. As tentações da paixão esquecida, mas sempre lembrada, retornam. Elas insistem
Post para alguém capaz de me entender...
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
amizade
A vida, quase sempre, nos prega peças. O destino nunca é suficientemente claro. O caminho pelo qual andamos, é sempre cheio de bifurcações. Às vezes, quando nos deparamos com a multiplicidade de escolhas, sentamos e esperamos o tempo escolher pela gente. É difícil levar a vida sozinho. É difícil escolher sozinho. Precisamos, sempre, dividir os pesos e as alegrias com alguém. Não necessariamente com um amor. Os amores fazem parte das peças que a vida nos prega. É aí que aparecem os amigos. Os verdadeiros amigos. Anjos disfarçados, que nos ajudam, nos apóiam e, mais importante de tudo, nos criticam, nos colocam no eixo, enxugam as nossas lágrimas e confortam nossos espíritos. A vida é cheia de detalhes e caminhos desconhecidos. E, muitas vezes, ela escolhe caminhos bastante engenhosos para fazer os amigos-anjos aparecerem. A forma como eles surgem, não importa. O que importa é a forma como eles modificam as nossas vidas. Alguns, de muito longe, outros, de muito perto. A distância física não importa quando a proximidade das almas é nula.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
exposição
Estou cansada de pessoas bacanas, classe média legal. Não concorde comigo apenas por concordar. Não aplauda minhas idéias, não sou mico de circo para ser “bonitinha”. Tenha opiniões, argumentos, posições. Tome partido, seja parcial. Mostre a que veio, mostre-se por inteiro. Dê a cara à tapa como eu dou a minha para você bater. Tenha coragem! Levante-se, mostre o rosto! Cresça, invente-se! Seja você mesmo. Não me copie, eu não gosto. Não me bajule, eu não gosto. Não puxe o meu saco, eu não quero. Quero ver você por inteiro, por mais medíocre que você seja. Não tenha vergonha de sua insignificância. Lute, para crescer e sair dela. Vamos! A vida tem pressa.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
mais o quê?
Classe média. Comida na mesa. Almoçar fora. Refrigerante e pipoca. Fome? O que é isso? Cinema. Shows. Teatro. Cultura e educação. Colégio bom. Faculdade paga. Oportunidades. Emprego. Carteira assinada. Cartão de crédito. Patrão. Papai e mamãe. Família perfeita. Preconceito? O que é isso? Cachorro, gato, irmãozinho. Vovó e madrinha. Presentes. Natal, aniversário, páscoa. Festas. Inglês. Espanhol. Italiano. Ballet clássico. Plano de saúde. Dinheiro para os remédios. SUS? O que é isso? TV, som e computador. Novas tendências. Cama arrumada. Cobertor e edredon. Banheira quente. Chuveiro a gás. Frio? O que é isso? Brinquedos na infância. Psicólogo. Aulas de etiqueta. Boa educação. Direitos garantidos. Justiça amiga. E você ainda quer o direito de ser infeliz?!
domingo, 28 de outubro de 2007
espelho d'alma
Pele vermelha, grandes manchas escuras em volta, mucosa irritada. Pequenos riscos vermelhos riscam a parte branca. O pequeno círculo central abre e fecha descontroladamente. Disritmia incansável. O globo está brilhante. As lágrimas lhe conferem um brilho único. O anel castanho-claro tem marcas. Não sei se são naturais ou se são as marcas que a vida e o tempo lhe deram. Abro, fecho, torno a abrir. As imagens passam através dele, violentam sua inocência. Fecho para não te ver. Mas sua imagem transcende a realidade. Ultrapassa os sentidos. Te vejo dentro de mim. Olha bem no fundo nos meus olhos. Você verá a minha alma. Me diz, você consegue se enxergar nela?
contramão
Estou correndo pelas ruas da cidade. De vez em quando, olho para trás. Quero ver quanta coisa já deixei passar. Placas, carros, pessoas, são muitos os obstáculos nessa corrida maluca contra os fatos. Corro, corro muito. Corro o mais rápido que as minhas pernas cansadas agüentam me levar. Corro contra tudo, contra o tempo, contra a vida. Estou estafada, cansada, mas não posso parar. Correr tornou-se mecânico, robótico. Passo por muitas coisas no caminho. Nem sei, ao menos, para onde eu vou. Apenas corro. Sempre para frente. Sempre contra tudo. No sentido oposto, vejo que você corre também. Você, corre da verdade. E eu, de encontro a ela.
sábado, 27 de outubro de 2007
meninas de mim
“Vem comigo, querida, pare de chorar!”, disse a menina-mulher para a menina-menina, que estava sentada, chorando no canto de seu quarto vazio. “Ir pra onde?”, perguntou a menina-menina para a menina-mulher. “Ir pra vida!”, respondeu, entusiasmada, a menina-mulher. Então, a pequena e frágil menina-menina levantou-se, enxugou, com as mangas compridas da blusa, as lágrimas que molhavam seu rosto e estendeu a mão para a menina-mulher. Menina, esta, que era a própria vida. A menina-mulher era a menina-menina no futuro. Mais forte e mais corajosa. Elas habitavam um mundo distante, o mundo de mim. Uma ajudou a outra a crescer. Quando a menina-menina caía e não conseguia levantar, surgia a mão da menina-mulher, sempre pronta, sempre forte. E quando a menina-mulher sentia-se fraca demais para sobreviver no meu mundo, a menina-menina aparecia radiante, trazendo consigo a beleza e a graça da infância. Assim aconteceu o mais belo dos encontros: o encontro de mim.
morta-viva
As palavras evidenciam a minha alma. Olha! Vê o sangue que escorre? Veja! Veja além das palavras. Elas mostram o meu eu mais profundo e escondido. Cada letra é um pedaço de mim. Vê as vísceras expostas? Veja! Olhe! Sinta o cheiro podre que sai do meu corpo aberto. É o cheiro dos sentimentos. Eles putrefaram dentro de mim. Veja a dor que pulsa latente na minha corrente sanguínea. Ela corrói as veias, apodrece o sangue. Olhe! Veja! Está vendo o meu coração negro? É a podridão que tomou conta de mim. Olhe! Veja! Sinta a dor de um cérebro amante e retardado. Sinapses descontroladas por algo que não tem valor. Um pus constante sai de dentro de mim. Nada mais pode me salvar. Epilepsia dos sentidos. Amor contido, também mata.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
visita íntima
As portas da cela se abrem. Faz tempo que você não aparece por aqui. Estou faminta, sedenta. Arrumei o pouco que tenho para te esperar. Todos os dias eu arrumo, na esperança de ver as grades se afastarem no início da noite para você passar. Em cima da pequena mesa tem uma caixinha de papelão. Nela, estão guardadas todas as cartas, todas as palavras, todas as promessas de me retirar da prisão que você fez. Você vem me visitar e diz que tem saudades. Ah como são boas e como doem essas palavras! Você, só você, tem o poder de me tirar daqui. Mas você diz que ainda não pode, que ainda é cedo. No fundo, você tem medo. Sabe o perigo que ofereço quando estou fora da prisão. Por isso, de vez em quando, você vem. Ora para alimentar o meu corpo faminto do seu, ora para dar de comer à minha alma carente de esperanças. Hoje, porém, você diz ter vindo para me buscar. Pena que já é tarde e os primeiros raios da manhã alcançam o meu rosto. Hora de acordar. Hora de libertar-me da prisão dos sonhos.
