sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

vestindo-me

A noite está fria, arrumo o meu ânimo e levanto. Vou me arrumar para sair. Tomo um banho, para despertar a vontade de colocar os pés para fora de casa. Escolho as roupas, como quem escolhe com qual humor sair. Visto o tênis, a básica segurança de sempre. Coloco as pulseiras e, com elas, coloco a disposição no corpo. Um último ímpeto de ficar em casa é espantado ao dar tchau pra mãe e fechar e porta da frente. Eu volto cedo, mas não me espere. Mais uma noite se vai.

sábado, 26 de janeiro de 2008

vazio

Amores vazios me completam. Preenchem o grande vazio de mim. Palavras vazias me completam. Preenchem os vãos vazios dos dentes na boca. Sentimentos vazios me completam. Preenchem os átrios e os ventrículos do músculo mais vazio do corpo. E eu, vazia, desprovida de mim, completo o mundo. Preencho o lugar que me cabe. Peça decorativa, apanhado de células vazias ocupando um lugar vazio do espaço.

opacidade

Não acendem, não piscam. Nada, nada. Não faz. Não acontece. Não acende a luz. É como tentar tocar o nada no escuro. É como querer alcançar o infinito. Talvez, eu tenha a pretensão de fazer parte dele. De integrá-lo. Ou, de querer sê-lo. Não sei, não sei. Nada, nada. Não acendem, não piscam. A luz tem brilho opaco. Matizes estranhas. Arco-íris em preto e branco.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

invasão

Tornado de sonhos, sentidos, sensações. Ele vem de longe e, agora, está tão perto, tão próximo. O vento agarra os meus cabelos, envolve o meu corpo, invade a minha alma. Perigo iminente, visível, real. Tento me segurar, me proteger do vento que quer me retirar daqui. O vento, forte, devastador é, ao mesmo tempo, tão doce, tão seguro, tão familiar. Difícil resistir às forças da natureza. À natureza dos sentidos que me invadem junto com o vento. Deixarei ele entrar, penetrar a carne, bagunçar os sentidos e, por fim, me tirar a razão.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

velhas tentações

São palavras que me tentam. Carregadas de sentidos, sentimentos e vontades. Perturbam a ordem em mim. Meu coração, tão bem treinado, diz que não quer mais obedecer. Sua vontade é sucumbir a uma ordem sem leis. Bate, agora, sem compasso, sem ritmo. Descontroladamente, desesperadamente. Bate no ritmo descompassado das perguntas que vêm, insistentes, à minha mente. Meus olhos não mais querem ver. Fecharam-se às verdades da minha alma, à racionalidade inerente. Sei que é errado, mas, também, sei que é real. Mais uma vez é real. De novo, vou tentar fugir. Fuga inválida pelos caminhos que me levam até o prazer.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

invenções inventadas

Invenções inventadas. Palavras repetidas, momentos vazios. Procuro o procurar. Procuro o verbo, a ação e não o objetivo. Busco fazer e, depois de feito, perde o sentido. Procuro nada mais que eu saiba. Procuro o vazio. Procuro uma caixa grande cheia de nada. Mas, o que importa, é procurar. Luto por tudo o que quero. Depois que eu consigo, perde a graça. É como pedir demais e se cansar de pedir. Procuro o nada. Procuro a vida. E nada, nada mais.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

motivos

Quando o cansaço entrar em seu corpo, anime-se. O ânimo traz mais cansaço. Quando você achar que nada vai mudar, não aguarde mudanças, opere-as. No final, até mudar vira rotina. Quando a tristeza bater à sua porta, alegre-se. A alegria, também, traz a tristeza. Quando você não agüentar mais caminhar, corra. Correr, lhe dará mais vontade de parar. Quando o sol estiver forte demais, não feche os olhos, abra-os. Doerá, mas você vai se acostumar com a luz. Quando tudo lhe parecer perdido, aposte mais alto. Quem sabe, você perderá a vida. Quando a noite lhe envolver em breu, respire fundo e deixe-se levar. A noite trará os seus medos, enfrente-os. Quando o seu amor partir, arrume outro. Este, também, partirá. Quando a vida perder a graça, viva mais. Viver nos aproxima da morte. Alegre-se.

sábado, 22 de dezembro de 2007

aos poucos

Aos poucos estou apagando os seus registros. Pelo menos os mais aparentes. Alguns - a parte mais primitiva de nós - não tenho como apagar. Correspondem ao cheiro, ao tato, ao gosto. Memórias inabaláveis, impossíveis de serem, simplesmente, deletadas. Suas digitais ficarão para sempre na minha pele, o teu gosto permanecerá para sempre na minha boca. Porém, ainda assim, estou apagando suas impressões. As mais aparentes. Para que elas não mais incomodem os meus olhos. Para que não mais machuquem a minha alma.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

hábito

Puro hábito. Escrevo apenas por escrever. Não me pergunte o que dizem os meus textos, não saberei lhe dizer. Eles falam de dor, de vida, de morte, de sonhos. Mas não sei o que falo ou penso sobre essas coisas. Ensaio palavras, pronuncio pretensões de uma pequeno-burguesa de barriga cheia. Escrevo porque o papel aceita tudo. Pobre coitado mudo. Ele não pode protestar as minhas idéias. Não pode discordar de mim. Falo de fome sem senti-la, falo de dor sem ter perdido um filho, falo de vida sem viver a minha, falo de morte sem lembrar das vezes em que eu morri. No fundo, somos todos hipócritas. Baile de máscaras no salão nobre do mundo. Burguesia suja. Aquele que está dançando lá trás é o representante de uma ONG de proteção à criança e é o pai que bate em seus filhos atrás das quatro paredes de sua mansãozinha. Você é aquele que se revolta vendo o Jornal Nacional, come chocolate, bebe coca-cola no intervalo e nega comida àquele que bate à sua porta. O mundo? Esse é o palco dos cegos que bailam com suas máscaras. É o brinquedinho daqueles que não enxergam além da dor que não sentem, da fome que nunca passaram, do filho que nunca enterraram, da casa que nunca perderam, do frio que nunca sentiram e do amor verdadeiro que desconhecem.

sábado, 17 de novembro de 2007

estranho não poder

Meu amor. Estranho te chamar assim, novamente. Estranho pronunciar as frases já antigas na memória. Estranho cantarolar por aí os refrões das músicas que eram nossas. É tudo tão sem nexo, tudo tão sem sentido. Olho o passado e não te encontro mais. Perdi, ou perdemos, a identificação. Somos estranhas velhas conhecidas. Queria poder mapeá-la de novo. Queria poder reviver cada parte de nós duas. É estranho te querer novamente. Meu amor. Estranho te chamar, de novo, assim. Eu não posso, não posso querer mais.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

lembranças, apenas lembranças

Lembranças, lembranças, lembranças. Memória recente, memória arquivada. Arquivo profundo, densa papelada. Registros de ti. Toques guardados. Sensações protegidas, aquelas pela última vez sentidas. Memória do gosto, do toque, do cheiro, do olhar. Braços e abraços, pele e tato, saliva, língua e boca, sons, olfato. Tudo guardado. Memórias de nós. Lembranças, lembranças, lembranças.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

repetição repetição repetição

Lembranças, lembranças, recordações, memórias, memórias. Passado, passado, passado, presente, tristeza, tristeza, tristeza. Futuro, futuro, saudade, incertezas, incertezas. Retorno, retorno, retorno, permanência, passageiro, passageiro, passageiro. Amor, amor, decepção, eternidade, eternidade. Vida, vida, vida, morte, renascimento, renascimento, renascimento. Fortaleza, fortaleza, dúvidas, paixão, paixão. Distância, distância, distância, caminho, volta, volta, volta. Traição, traição, carinho, perda, perda. Choro, choro, choro, rompimento, vontade, vontade, vontade. Pedidos, pedidos, promessas, mentiras, mentiras. Mais amor, mais amor, mais amor, mais saudade, esquecer, esquecer, esquecer, esquecer, esquecer, esquecer. Pra sempre!

sala-coração

Cinema-mudo de mensagens, palavras escritas, histórias sonhadas. Todos os dias, o meu coração projeta filmes na memória, resgata passagens da minha alma. Os atores são sempre os mesmos. Só o que muda são os cenários que a imaginação inventa ou recorda. Nesta macabra sala de cinema, a única expectadora é a esperança esquálida, apagada, deprimida, definhando sentada na cadeira de veludo cor de vinho. Além da esperança, no fundo da salinha escura, podemos ver a silhueta magrinha da tristeza-escrava, varrendo incessantemente a sala de projeção.

domingo, 4 de novembro de 2007

prova viva

Vem cá! Senta aqui comigo. Tampe os ouvidos. Vem brincar de ser surda comigo, vem? O amor nos chama. Quer, de novo, nos levar pra cama. Seja forte, querida! Não escute a voz bandida do amor. Vem cá! Senta aqui comigo. Feche os olhos. Vem brincar de esquecer da vida comigo, vem? A vida nos prega muitas peças. O destino quer sempre nos fazer andar para trás. Vem cá! Senta aqui comigo. Esconda o seu corpo. Mascare os seus sentidos. As tentações da paixão esquecida, mas sempre lembrada, retornam. Elas insistem em voltar. Elas corroem os nossos sentidos, mastigam a nossa carne, escarram na reconstrução de nós. Seja forte, querida! E, se ainda assim, a fortaleza não bastar, sucumba! E saiba, quando você não mais agüentar, estarei aqui. Refeita das mesmas dores. Cicatrizada das mesmas feridas. Para provar que somos mais fortes que o amor.


Post para alguém capaz de me entender...

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

amizade

A vida, quase sempre, nos prega peças. O destino nunca é suficientemente claro. O caminho pelo qual andamos, é sempre cheio de bifurcações. Às vezes, quando nos deparamos com a multiplicidade de escolhas, sentamos e esperamos o tempo escolher pela gente. É difícil levar a vida sozinho. É difícil escolher sozinho. Precisamos, sempre, dividir os pesos e as alegrias com alguém. Não necessariamente com um amor. Os amores fazem parte das peças que a vida nos prega. É aí que aparecem os amigos. Os verdadeiros amigos. Anjos disfarçados, que nos ajudam, nos apóiam e, mais importante de tudo, nos criticam, nos colocam no eixo, enxugam as nossas lágrimas e confortam nossos espíritos. A vida é cheia de detalhes e caminhos desconhecidos. E, muitas vezes, ela escolhe caminhos bastante engenhosos para fazer os amigos-anjos aparecerem. A forma como eles surgem, não importa. O que importa é a forma como eles modificam as nossas vidas. Alguns, de muito longe, outros, de muito perto. A distância física não importa quando a proximidade das almas é nula.