terça-feira, 11 de setembro de 2007

tudo igual

Nada mudou, apesar de todas as mudanças. Espero tanto, ainda quero tanto. Tudo permanece do jeito que você deixou. As fotografias ainda são as mesmas, permanecem inalteradas, imóveis no lugar sagrado de antes. Tudo ainda guarda você. Cada parte de mim ainda lembra o toque, a pressão das mãos, a intensidade do beijo. Não me reconheço mais e, ainda assim, me encontro em ti, me busco em ti. Toda noite, antes de dormir, olho para o vazio escuro do meu quarto. Lembro de quando, apesar do breu, os olhos ainda enxergavam. Não com a visão de ver, mas com a visão de sentir. Aquela que dispensa as pálpebras, a luz, os olhos. Lembro de quando o cheiro guiava as noites, revelando o mapa escuro de nós duas. Lembro de quando o meu sono era tranqüilo, e eu adormecia sorrindo feito boba, alegria incontida na face. Lembro de quando a única certeza que eu tinha era a do teu olhar pela manhã, do “bom dia” e do sorriso doce. Lembro de cada parte, cada detalhe da imensidão de tudo em nós. E espero. E te espero. Preciso de ti, para completar a outra parte do infinito em mim.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

diante do espelho

Olho para o espelho e converso comigo mesma. Me digo: - Você será forte, mulher. Você vai conseguir. Decoro palavras duras, ensaio discursos rudes. Pego o dicionário e leio rapidamente. Procuro aquela palavra que será capaz de te machucar, que irá arranhar a tua alma. Combino fonemas, rimo palavras difíceis. O que será que vai doer mais em ti? Ensaio tantas e tantas vezes. Digo ao espelho tudo aquilo que você deveria ouvir. Invento verdades, duras verdades. Falo tudo aquilo que está entalado na minha garganta, atravessado no meu peito. Discurso em vão, inútil. Mas ainda assim, tento. Muito mais para me convencer das verdades que invento do que para te machucar com as palavras que digo. Quero, um dia, poder acreditar em tudo o que falo. E, quem sabe, conseguir te dizer tudo aquilo que só o espelho e as paredes mudas escutam.

dois bicudos

"Mas sempre tinha um amigo pra falar
Que o nosso amor nunca foi feito pra durar"

(Ana Carolina)

pedidos

Sentada em alguma janela, olho o mar. Olhos vidrados, parados, estagnados nas ondas cíclicas. Mergulho, então, num mundo distante, surreal. Acho que é o mundo de mim. Fecho os olhos, sinto a brisa forte batendo no meu corpo, atravessando a minha pele, rasgando as minhas entranhas. Cabeça na areia, rosa branca entre os dedos, sete ondas, olhos fechados, ainda. Devoção e respeito. Olho a rosa à deriva, partindo aos poucos e sem pressa. Peço você à Iemanjá.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

tempo

Hoje sentei na sala de casa, tomei um café, voei pelo tempo e pelo espaço. Já estamos em setembro. Este ano passou tão rápido. E sinto que vivi plenamente apenas três, dos nove meses que se passaram. Durante o primeiro mês te conheci. Conversas, afinidades, descobertas. Entre este e o segundo veio a espera, a ansiedade, os sonhos. O segundo mês foi o momento de afirmação de tudo, a confirmação daquilo que foi construído sobre o terreno vazio e vago das palavras. O terceiro mês, talvez, o mais esperado, o mais sonhado, foi aquele em que tudo se fortaleceu. Onde as certezas tornaram-se mais certas e mais redundantes. Em todos os intervalos entre os meses vividos, a vida passou, simplesmente. Agora me pergunto em que mundo eu estava, que não vi que relógio da Terra andou tão depressa. Não vi a vida passar por mim. Acho que estava sentada em algum outro mundo, numa espécie de transe. Vai ver era o mundo da Lua. Ou, quem sabe, o mundo daqueles que amam.

sombras

Ando por aí, sem rumo, sem destino. Caminho pelos dias frios, sombrios, escuros, apesar do sol forte que desenha sombras pelas calçadas antigas. Procuro uma parte de mim, esquecida, ou, talvez, sempre lembrada. Acho que a perdi pelo caminho, pela longa estrada que percorri um dia por alguém, por algo, por sonhos. Nada mais restou de grande porção de mim. Da melhor parte de mim. Era tão grande e, ao mesmo tempo, tão frágil, tão leve, tão tênue, que não devo ter percebido quando, em algum momento do longo caminho, a deixei cair, escorregar, deslizar pelas minhas mãos. Agora me pergunto como pude, como deixei acontecer. Me sentia tão forte quando a grande porção leve de mim andava ao meu lado. E, de repente, ela caiu, partiu-se, acabou. Ando agora procurando. Buscando em cada canto, em cada parte, em cada lugar inabitado, a porção maior de mim. Ou outra qualquer que sirva, que seja capaz de me preencher como a antiga porção de mim. Olho as sombras projetadas na calçada. São como as sombras que vagam e bailam dentro de mim. Vejo as sombras, sinto as sombras, mas não sou capaz de ver os objetos. A visão está turva, embaçada. Talvez pelas lágrimas que não saíram, que ficaram paradas, imóveis, incapazes de cair pela face. O jeito agora é olhar para dentro de mim, procurar a minha porção esquecida, ofuscada pelo brilho e pela intensidade da minha porção perdida.

bandeira

"Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro
Se bem me lembro"

(Zeca Baleiro)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

comigo mesma

Nunca tinha parado pra pensar no tamanho da cidade. Hoje vaguei pelo centro, lembrei de mim, procurei a infância. Busquei as marcas do passado, do mais distante de mim. Daquilo tudo que não me lembro, que a memória dos fatos recentes apagou. Hoje andei por mim. Pelas minhas ruas, pelas minhas calçadas. Marquei encontro comigo mesma, tomei sorvete sentada comigo na praça. Foi bom, muito bom o encontro comigo. Eu, comigo mesma, sem ninguém pelo caminho. Uma conversa franca, de amigas antigas, de longa data e que há muito não se viam. Sentei comigo no meio-fio, olhei as árvores, os carros o movimento e o ritmo da cidade de mim. Namorei comigo, fiz de mim a minha eterna namorada.

então vai

Passo dias escrevendo, trancada no quarto, fechada para o mundo. O que eu posso te falar sobre o sol, se eu não olho mais para fora e mantenho as janelas sempre fechadas? Você me pediu palavras duras. Disse para eu falar o que você precisava ouvir. Mas de que adiantam as palavras, quando o que te falta eu não posso dar? Você precisa de coragem para enfrentar seus medos, para enfrentar você. O mundo não é o problema agora. Ele é a solução, a sua justificativa válida, a sua desculpa. Mas tudo bem, não posso ter a pretensão de te ensinar algo da vida. Eu nem ao menos sei lidar com a minha vida agora. Eu não tenho mais nada a dizer, mais nada a declarar. Vai lá, boa sorte! Volte para a sua vidinha. Quero que você seja feliz. Vai lá, prometo ser sua cúmplice. Serei cúmplice dessa mentira bonita que você inventou. Vai lá, eu ajudo. Juntas, esconderemos do mundo as verdades que incomodam a tua alma. Ajudo, principalmente, a esconder de ti. Nada de palavras rudes, ásperas, doloridas. Pra ti só palavras doces agora. A vida é boa, o dia é belo, as noites são frescas como nos dias de verão. Chegou a hora de você partir, não se atrase! Vai logo, sem culpas. Não se preocupe comigo, não olhe pra trás. Você vai ser feliz, ao menos por um tempo. E quando a vontade de regressar bater à sua porta, não volte.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

mil pedaços

"E tanto faz
De tudo o que ficou
Guardo um retrato teu
E a saudade mais bonita"

(Legião)

adeus

Eu morro, toda noite. Perco a vida, perco o sono. Durmo por não ter outro remédio para que o tempo avance o mais depressa possível. Eu renasço, toda manhã. Vivo por não ter outro remédio que faça os dias voarem para que a noite chegue mais uma vez. Um sopro de vida me reanima na hora do café da manhã. É a esperança de cada dia. A esperança vazia, solta, apagada. Mas é, também, aquela que me traz você por alguns instantes ilusórios. É ela que me faz ver teus olhos, escutar teu riso, sentir teu toque. A noite vem, e me tira tudo isso. É o golpe, a dor da perda, a morte, o enterro dos sonhos. Amanhã, acordarei com a brisa gelada da vida esvoaçando os meus cabelos. Apagarei a luz agora. Adeus, meu grande amor.

domingo, 2 de setembro de 2007

l'avventura

"Acho que sempre lhe amarei
Só que não lhe quero mais
Não é desejo, nem é saudade
Sinceramente nem é verdade
Eu sei por que você fugiu
Mas não consigo entender"

(Legião)

aos vinte anos

Hoje as pessoas diriam que é o meu dia. Festa, amigos, família, casa cheia. Presentes, desejos, felicitações. Porém, tudo o que eu queria não vem. E o pior, eu sei que não virá, mas, ainda assim, espero. Aguardo ansiosamente a ligação que não faz o telefone tocar. Meu estômago contrai-se a cada toque da campainha. Mas eu sei que não é você, antes mesmo de abrir a porta. Olho o relógio, você está atrasada. Um atraso longo, demorado. Você não vem, eu sei que não. Mas esse é o único sonho que restou em mim. Queria que você estivesse ao meu lado agora. Queria que você estivesse aqui. Os presentes não fazem diferença, as pessoas, apesar de queridas, não são você. Assopro as velas, tenho um único pedido, não é? Um único pedido e a certeza de que nada muda aos vinte anos.

datas

Hoje fico mais velha. Sentada na cama, olho redor. Vejo o mural pendurado na parede. Várias fotos, muitos momentos eternizados, guardados, retidos para sempre no papel. Representação de uma realidade há muito perdida, deixada para trás. Olho pra inocente menininha loira, sentada na grama, flores nas mãos. Tão linda, tão meiga. Ela cresceu, perdeu a inocência. Logo ao lado, a menininha está mais velha. Pequena mocinha, descobrindo a vida. Do outro lado, avisto a mulher de hoje. Ou melhor, a mulher de alguns dias atrás. De quando ela ainda era feliz, de quando ela ainda sonhava. Capacidade trazida desde a infância, carregada durante a adolescência e perdida agora, depois de grande. Mas tudo bem, os sonhos são apenas uma parcela do que perdemos ao longo da vida, durante o longo caminho que percorremos. Aos poucos, nos acostumamos com as perdas. A cada ano, a cada aniversário comemorado, deixamos mais e mais coisas para trás. Adquirimos experiência, e a certeza, cada vez mais latente, de que o mundo é, a cada ano, mais cruel e vil.

sábado, 1 de setembro de 2007

pensamentos

Lugar cheio, tanta gente em volta. E eu estou sentada, apenas observo. O pensamento vai longe, há muito tempo o que está ali sentado é apenas o meu corpo, a parte besta de mim. Olho ao redor, olho as pessoas. Se lembra de quando a gente acreditava que passaríamos muito tempo com nós duas? Olho o casal logo a frente de mim. Dá vontade de avisá-los que a felicidade não é eterna. Dá vontade de dizer “ei, nada dura pra sempre como a gente sempre acredita”. Sinto raiva do mundo. Odeio a felicidade alheia. Quero que o mundo acabe, que tudo se acabe. E quanto a você, aproveite e pegue carona para o inferno.